O efeito das transferências de dinheiro no bem-estar subjetivo e na saúde mental

Sabemos que as transferências de dinheiro reduzem a pobreza, melhoram a saúde e melhoram a educação, mas que impacto elas têm sobre o modo como as pessoas se sentem e pensam sobre suas vidas? Ou, perguntando de modo mais direto: o dinheiro faz as pessoas felizes? A literatura sobre a ligação entre renda e bem-estar subjetivo há muito tempo carece de evidências causais – há muitas pesquisas estabelecendo correlações. Felizmente, foram feitas pesquisas recentes com transferências de dinheiro em países de baixa e média renda. Revisamos estas evidências em uma meta-análise. Em resumo, descobrimos que as transferências de dinheiro têm um pequeno efeito positivo sobre o bem-estar subjetivo, um efeito que dura vários anos.

Na HLI, buscamos as formas mais custo-eficazes para melhorar o bem-estar global. Transferências de dinheiro para aqueles em situação de baixa renda são uma opção óbvia de estudarmos: trata-se de uma intervenção simples e escalável e (em parte por isso) uma das intervenções mais amplamente estudadas e implementadas em países de baixa e média renda. Isto as torna um ponto de referência útil (benchmark) para comparar a eficácia de outras oportunidades de aumento do bem-estar.

Neste documento, revisamos sistematicamente toda a literatura disponível sobre o efeito das transferências de dinheiro no bem-estar subjetivo[1]  em países de baixa e média renda. [2] Incluímos vários tipos de transferências de dinheiro, tais como transferências incondicionais ou condicionais, e transferências pagas mensalmente ou de uma só vez*.

*Nota do Tradutor: Geralmente pensamos em programas de transferência de dinheiro como uma renda básica, sendo depositada mensalmente. Contudo, também há experimentos em que uma grande quantidade de dinheiro é transferida de uma só vez (chamado no original de lump sum transfers ou pequenas variações dessa expressão).

A fim de avaliar a relação custo-eficácia, precisamos estimar o efeito total sobre o bem-estar subjetivo. No resumo a seguir, descrevemos brevemente os principais resultados extraídos do estudo completo e incluíremos uma estimativa do efeito total em termos de Bem-estar Ajustado pelos Anos de Vida, ou WELLBYs (Well-being Adjusted Life-Years), conceito que será explicado mais adiante.

Nosso método de pesquisa revelou 1.147 estudos potencialmente relevantes; 38 deles foram considerados relevantes para nossas investigações e incluídos na análise. Coletamos seus resultados, padronizamos os efeitos e tomamos sua média ponderada. O efeito médio foi de 0,10 desvios padrão (intervalo de confiança de 95%: 0,08-0,12), que pode ser mensurado após, em média, dois anos. Isto está exibido como o diamante negro na parte final da tabela abaixo. Pelos padrões da ciência social, este é um efeito de tamanho pequeno[3], mas vale a pena notar que este resultado pode ser encontrado após dois anos, o que é um período de acompanhamento excepcionalmente longo. Isto sugere que as transferências de dinheiro fazem as pessoas mais felizes e o fazem por um período substancial de tempo. O intervalo previsto, representado pela linha tracejada em ambos os lados do diamante negro, mostra que 95% dos estudos futuros deverão encontrar um efeito positivo das transferências de dinheiro no bem-estar subjetivo.

Nota do autor: ‘Mo. After Start (meses após o início)’ é o número médio de meses desde que a transferência de dinheiro teve início. ‘$PPP Monthly (mensal)’ é o valor médio mensal das transferências de dinheiro em PPP (paridade de poder de compra) ajustado ao valor de dólares americanos do ano de 2010. As transferências de dinheiro “de uma só vez (lump sum transfers)” foram convertidas em valores mensais dividindo o tempo médio de acompanhamento por 24 meses.

As transferências de dinheiro variam de várias maneiras, incluindo seu tamanho e se foram pagas de uma só vez (lump sum) ou em intervalos regulares (fluxo). Tentamos controlar por fatores como estes, conduzindo uma meta-regressão. Esta é uma forma de estimar como certas variáveis (como o tamanho da transferência de dinheiro) moderam o tamanho do efeito. Uma meta-regressão se comporta de forma semelhante a uma regressão padrão. [4] Em seguida, descrevemos os principais resultados da meta-regressão, que podem ser vistos na Tabela 2 do documento de trabalho. Também ilustramos algumas das relações nas figuras abaixo; observe que as regressões nas figuras não controlam para outras variáveis, ao contrário dos resultados da meta-regressão (Tabela 2).

Primeiramente, e sem surpresa, a quantidade de dinheiro transferido é importante! É um preditor estatisticamente significativo do tamanho do efeito, tanto em valores absolutos (o valor em dólares) quanto em valores relativos (ou seja, proporcional ao consumo anterior). A duplicação da renda por um ano leva a um aumento do desvio padrão de 0,11 em nosso índice de bem-estar subjetivo[5] e uma transferência equivalente a um valor mensal de US$ 100 PPP recebido durante dois anos[6] leva a um aumento no SWB de 0,10 desvios padrão (todos os outros mantidos iguais). [7] Note que estas constatações podem não se aplicar aos países de alta renda.

Nota do Autor: tamanho do efeito da transferência de dinheiro, tanto em valor absoluto (esquerda, em dólares americanos por mês) quanto em valor relativo (direita, como proporção da renda anterior). As linhas azuis são simples regressões de y contra x; veja a Tabela 2 no papel para os resultados completos.

Em segundo lugar, investigamos a duração dos efeitos. A figura abaixo mostra os dados para as transferências de caixa em amarelo e roxo, respectivamente, e uma simples regressão do tamanho do efeito em relação ao tempo para cada um deles. A grande maioria dos dados foi coletada menos de três anos após o início das transferências. Apenas um estudo tem um acompanhamento após cinco anos. Verificamos que há uma decadência através do tempo, pela qual o efeito médio chegaria a zero após aproximadamente sete anos desde o início da transferência, assumindo uma decadência linear com o tempo (ver Modelos 3 e 4 na Tabela 2 no documento completo). [8] Também realizamos as análises separadas de quando as transferências foram pagas de uma só vez (lump sum) ou em intervalos regulares; nestes casos não detectamos um decaimento estatisticamente significativo, que pode ser devido ao baixo poder estatístico. Mais dados sobre o efeito a longo prazo das transferências de dinheiro melhorariam esta análise.

Em terceiro lugar, como sugere a figura abaixo e nossa análise confirma (ver Modelo 1, Tabela 2), as transferências de dinheiro têm um efeito maior (0,04 desvios padrão, ou quase metade do tamanho médio do efeito) sobre a satisfação com a vida do que a depressão. Os resultados para a felicidade são menos claros, mas parecem ser intermediários entre a depressão e a satisfação com a vida.

Nota do Autor: Esta figura mostra o tamanho do efeito para cada estudo em forma de círculos, agrupados por tipo de resultado. Um diagrama de caixa (box plot) para cada resultado mostra os valores da mediana, primeiro e terceiro quartis. Os gráficos de violino ao redor ilustram a densidade dos pontos de dados no eixo y.

Também testamos se o desenho do estudo, o continente ou se condicionalidade associadas as transferências influenciaram a magnitude do efeito. Verificamos que apenas a condicionalidade teve um efeito significativo: as transferências condicionais de dinheiro tiveram um impacto consideravelmente menor sobre o SWB (-0,040 SDs).

Por fim, não detectamos efeito transbordamento significativo (spillover effects), ou seja, um efeito sobre os não-recipientes em outros lares da mesma comunidade. Este resultado é importante, pois uma potencial preocupação quanto as transferências de dinheiro, enfatizada por Plant (2019, p230), é que as transferências podem aumentar o bem-estar dos destinatários ao custo de piorar a situação dos não-recipientes, reduzindo assim sua eficácia geral. Entretanto, observamos que apenas quatro dos estudos incluíram algum tipo de mensuração do efeito das transferências sob a comunidade.

O que tudo isso implica para nossa compreensão do impacto total que uma transferência de dinheiro de US$1.000, dada a alguém vivendo em pobreza (medida global), teria em seu bem-estar? Usamos a unidade de um WELLBY para responder a essa pergunta, definindo WELLBY como um aumento de um ponto de bem-estar subjetivo (em uma escala de 0-10) por um ano. [9] Estimamos que o efeito total ao longo do tempo é de 0,38 desvios padrão, ou aproximadamente 0,87 WELLBYs. [10][11]

Não conhecemos nenhuma revisão de uma intervenção semelhante (ou seja, uma ‘micro’ -intervenção em países de baixa renda) que nos permita comparar o impacto total sobre o bem-estar subjetivo. Entretanto, nosso trabalho futuro visará preencher esta lacuna, revisando as evidências sobre efeitos de determinadas intervenções tal como a cirurgia de catarata e a terapia em grupo.

Nosso estudo tem várias limitações, mais notadamente que as evidências são escassas (com apenas quatro estudos) sobre efeito transbordo para outros membros da comunidade, e quanto ao longo prazo (mais de cinco anos). Não há dados sobre o efeito em outros membros da família do destinatário. Algumas advertências gerais são (1) que resultados insignificantes não significam que um efeito não exista – pode ser muito pequeno para ser detectado dado o tamanho de nossa amostra e (2) que este efeito pertence apenas a populações similares (os muito pobres em países de baixa e média renda).

Esta revisão fornece fortes evidências de que as transferências de dinheiro melhoram o bem-estar subjetivo das pessoas em contextos de baixa renda. Nossa estimativa do efeito total sobre o bem-estar é nova, e encorajamos estudos futuros a fazerem estimativas semelhantes a fim de comparar a relação custo-eficácia de diferentes intervenções de saúde e desenvolvimento.

Notas:

[1] Consideramos as perguntas feitas sobre satisfação de vida, felicidade ou alegria como bem-estar subjetivo. Medidas subjetivas de bem-estar tendem a avaliar como alguém está indo em geral, às vezes incluindo medidas separadas de estados mentais positivos e negativos. Portanto, consideramos os questionários sobre saúde mental que perguntavam sobre distúrbios afetivos ou de humor como substitutos para o aspecto negativo do bem-estar subjetivo. A coluna “medidas” da Tabela A4 no documento inclui todas as medidas incluídas. (voltar)

[2] Incluímos projetos de estudos experimentais e quase experimentais, publicados desde o ano 2000. (voltar)

[3] Cohen (1992) estabeleceu a convenção que pequeno = 0,2, moderado = 0,5 e grande = 0,8. (voltar)

[4] Um aspecto em que uma meta-regressão é diferente de uma regressão padrão é que estudos individuais são usados como pontos de dados, em vez de pessoas individuais. Outra diferença é que os estudos são ponderados por sua precisão, portanto, geralmente, estudos maiores têm uma influência maior do que estudos menores. As meta-regressões também permitem a meta-regressão dentro do estudo e, no caso de meta-regressão de efeitos aleatórios, entre a variabilidade de estudos. (voltar)

[5] Como mencionado na nota de rodapé 1, incluímos muitas métricas de resultados no índice geral do tamanho do efeito, incluindo satisfação com a vida, felicidade e resultados de saúde mental que medem estados afetivos. (voltar)

[6] Transferências feitas em intervalos regulares foram recebidas, em média, por dois anos, e esse foi período que pressupomos de que uma transferência paga de uma só vez é consumida. (voltar)

[7] Um valor de US$ 120 mensais dobraria a renda familiar por um ano e levaria a um efeito de desvio padrão de 0,12 no SWB. (voltar)

[8] Isto é consistente com o resultado mesmo quando se retira o acompanhamento (follow-up) feito aos nove anos, ou se usamos a decadência para estudos com múltiplos acompanhamentos. (voltar)

[9] Como observado anteriormente, este índice inclui satisfação com a vida, felicidade e medidas de distúrbios de humor. (voltar)

[10] Usando um desvio padrão de 2,3, como fizemos anteriormente (ver célula 4 em nosso modelo anterior). (voltar)

[11] Isto é notavelmente menos do que nossa estimativa anterior de ~1,6 WELLBYs por indivíduo, onde WELLBYs eram definidos em termos de pontos de satisfação de vida. Dada a diferença significativa em termos de resultados de satisfação de vida e depressão, nossa estimativa aqui é provavelmente subestimada, em comparação com nossa estimativa anterior. Planejamos investigar o efeito de diferentes métricas de bem-estar subjetivo em seu devido tempo. Além disso, anteriormente tínhamos considerado apenas as transferências de dinheiro feitas pela ONG GiveDirectly, mas, por exemplo, aqui incluímos tanto as transferências de dinheiro condicionais como as incondicionais, o que também sugere que estes resultados estão subestimados. Esperamos atualizar nossa estimativa anterior no futuro, com base nas informações desta meta-análise. (voltar)

Autor: Joel McGuire

Tradução: Fernando Moreno

Publicado originalmente 20 de novembro de 2020 no fórum do Altruísmo Eifcaz. Essa tradução foi originalmente publicada aqui.

Os melhores argumentos para doar

A seguir apresentamos o resultado de um concurso para encontrar os argumentos mais convincentes para doação.

Obs.: adaptamos levemente alguns dos argumentos para melhor se adequarem ao nosso contexto.

Argumento 1

Pense nisto por um momento: alguém que você conhece e gosta está de repente para trocar de lugar com um dos 2 bilhões de seres humanos vivos neste momento que não tem acesso a água potável limpa e não contaminada. Ou talvez com uma das 800 milhões de pessoas que não terão o que comer em algum momento deste ano. O que você faria para ajudar a essa pessoa que você conhece?

Talvez você pararia tudo o que estava fazendo e não descansaria até tê-la ajudado. Agora considere por um momento que você será incapaz de ajudá-la. Você espera que outros a ajudariam?

E se alguém fosse capaz de ajudar, tendo que contribuir com apenas alguns reais, mas não o fizesse?

Se você acha que deixar de ajudar nessa situação seria um erro, então peço que reflita sobre seu próprio comportamento. Você permitiria que outra pessoa suportasse estas condições simplesmente porque você não se preocupa em arcar com o custo de ajudá-la? Suspeito que você responderia “Não” a esta pergunta e, no entanto, eu lhe digo que você está permitindo que isso aconteça.

Todos os dias você tem a oportunidade de poupar uma pequena quantia de dinheiro para proporcionar a um companheiro humano o mesmo acesso básico à comida ou à água potável — com que freqüência você já fez isso? Para a maioria das pessoas, nosso acesso privilegiado à água limpa e à comida não foi nossa escolha, tivemos apenas a sorte de nascer no país certo no momento certo.

Podemos optar por estender esse privilégio. Estou tentando convencê-lo de que está em nosso poder ajudar e que, se as posições fossem invertidas, se você (ou alguém que você conhece) precisasse de ajuda e outros optassem por não ajudar, você os consideraria imorais. Você é, neste momento, capaz de muito facilmente ajudar outro ser humano. Considere o que você esperaria de outras pessoas quando tomar esta decisão.

Autor: Jesse Blackburn

Argumento 2

Imagine um botão vermelho Se você apertá-lo, duas coisas vão acontecer:
Primeiro, você receberá 100 reais.
Segundo, um sério risco de contrair malária será infligido a oito crianças. Elas podem contrair a doença, podem sofrer terrivelmente e podem morrer devido a ela. Você apertaria o botão vermelho?

Parece que apertar este botão seria excessivamente egoísta e cruel. Ao apertá-lo, você colocaria seu próprio interesse em receber 100 reais acima do interesse de quatro crianças em evitar o risco de contrair malária.

Agora, imagine que alguém ponha aleatoriamente 100 reais à sua frente. Você poderia pegar e ficar com o dinheiro, mas também lhe é oferecida a oportunidade de apertar um botão verde por 100 reais em seu lugar. Se você apertar o botão, quatro crianças serão salvas do risco de contrair malária. Mosquiteiros serão distribuídos a elas, por um custo total de 100 reais. Dormir sob mosquiteiros é uma forma altamente eficaz de prevenir infecções em regiões onde a malária está disseminada. Duas crianças podem dormir sob um mosquiteiro, e quatro mosquiteiros serão distribuídos por 100 reais. Assim, ao invés de manter os 100 reais, você pode usá-los para salvar oito crianças do risco da malária, apertando o botão verde. Você o apertaria?

Não apertar o botão verde é muito semelhante ao apertar o botão vermelho. Se você apertar o botão vermelho, você recebe 100 reais, enquanto oito crianças estão expostas ao risco mortal da malária. Da mesma forma, se você não apertar o botão verde, você recebe 100 reais, enquanto oito crianças ficarão expostas ao risco mortal de pegar malária. Esta troca — colocar 100 reais acima dos interesses de oito crianças em evitar a malária — é o que precisamente faz parecer que apertar o botão vermelho é tão problemático. Portanto, se você não apertaria o botão vermelho, apertar o botão verde deve ser a escolha mais lógica. Ao apertar o botão verde, você renuncia a 100 reais, mas poupa oito crianças do risco mortal da malária. Isto deveria ser levado a sério, particularmente se você é o tipo de pessoa que nunca apertaria o botão vermelho.

Autor: Adriano Mannino

Argumento 3

Há poucas coisas com as quais praticamente todos concordam. O valor em ajudar ao próximo é uma dessas poucas coisas. Os filósofos são famosos por serem briguentos e concordarem em muito pouco. Mas em uma pesquisa com filósofos dedicados ao estudo da ética, 91% responderam que uma pessoa em situações normais deveria doar para a caridade. 96% destes filósofos afirmaram ter doado no ano passado.

Quase todas as tradições religiosas também estão de acordo. Para os cristãos, a caridade é uma das sete virtudes. Na bíblia, em João 3:17: se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como o amor de Deus permanece nele?

Para os muçulmanos, a caridade obrigatória (Zakat) é um dos cinco pilares do Islã. Há também a caridade voluntária (Sadaqah) que vai além da obrigação e é por isso também elogiada. Também no judaísmo existe o conceito de Tzedakah, que se traduz literalmente por “retidão”, mas que muitas vezes se refere à caridade. A doação não seria apenas um ato de benevolência, mas um dever que se tem que cumprir.

O público também concorda: de acordo com a Charities Aid Foundation, cerca de 88% das pessoas no Reino Unido fizeram pelo menos uma ação beneficente no ano passado. Nos EUA, 86% dos entrevistados acreditam que é importante doar tempo e dinheiro para as organizações.

A pobreza extrema é definida como tendo que viver com menos de 5 reais por dia. É frequentemente marcada pela falta de alimentos adequados, água potável e medicamentos básicos. Em 1980, mais de 40% da população mundial vivia nessa extrema pobreza. Hoje, apenas 10% estão nessa situação. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida global aumentou em mais de 10 anos.

Sendo esta pobreza tão extrema, também é muito barata de ser consertada: 50 reais a mais para nós seria muito bom, mas muitas vezes nem sequer pagaria a conta em um restaurante. Mas também poderia comprar 2 mosquiteiros de longa duração para prevenir a malária, ou desparasitar 15 crianças.

Em conclusão, dado que:
1-O ato de doar é visto como quase unanimemente algo bom de ser feito e
2-Pode fazer uma diferença maior para os mais pobres do mundo

Você sem dúvida deveria pensar em doar para o combate a pobreza extrema.

Autor: Julius Hege

Argumento 4

A vida de uma pessoa é o produto de suas escolhas.
Ao acabar de ler essa mensagem você terá uma escolha a fazer: doar para uma organização ou seguir rolando a barra de mensagens ? Os filósofos pensaram em várias razões pelas quais doar é a escolha certa a ser feita hoje, por isso vou lhes falar sobre elas. Mas, em última análise, a escolha é sua. Você deve se sentir bem com qualquer escolha que fizer, mas primeiro, leve algum tempo para pensar sobre por que doar pode ser a melhor opção.

Doar faz mais “bem” do que usar o dinheiro para si mesmo.
Alguns filósofos pensam que devemos procurar maximizar os bons resultados no mundo, mesmo que às vezes isso signifique que as pessoas individualmente não obtenham o que desejavam. Isto é chamado de utilitarismo. Um exemplo desta abordagem é que é uma boa idéia fazer um remédio que possa salvar 1 milhão de pessoas em vez de um que só poderia salvar 1 pessoa. Você tem a oportunidade de dar dinheiro a uma organização que ajuda um grande número de pessoas. Estes filósofos diriam que isto deveria ser priorizado ao invés de gastar, digamos, 50 reais, consigo próprio. Mesmo que possa ser doloroso não ter 50 reais em sua própria vida, se “desapegar” deste valor é a coisa certa a fazer “para o bem maior”.

O altruísmo é em si mesmo um “bem”.
Os filósofos também pensam que devemos fazer escolhas que em si mesmas são morais. Esta é a base de muitos códigos de ética religiosos e não-religiosos. Uma coisa que todas as religiões e códigos de ética concordam é que doar é uma coisa boa a fazer. Optar por doar hoje significaria que você está fazendo uma escolha que se alinha com o que diversos seres humanos, ao longo de séculos, acreditam ser uma coisa boa de se fazer.

Atos de altruísmo podem criar uma cultura que encoraja outras pessoas a fazerem coisas boas.
Tanto psicólogos como filósofos têm demonstrado que doar é contagioso. As pessoas que pensam que outras pessoas doam muito dinheiro também são mais propensas a doar. Isto cria uma cultura, um “efeito onda”, no qual uma doação leva a mais doações. Portanto, se você doar hoje e contar isso a outras pessoas, você está criando uma cultura que não só alcançará uma coisa boa com sua doação, com também aumentará as coisas boas que acontecem no mundo. Você pode fazer algo muito bom ao fazer uma doação hoje.

O altruísmo é bom.
Finalmente, filósofos e psicólogos têm demonstrado que doar é bom, o que significa que você pode sentir orgulho, alívio e alegria ao doar hoje. Os psicólogos sabem que estes sentimentos podem melhorar seu bem-estar e alguns filósofos diriam que estes sentimentos trazem sentido à sua vida e são metas importantes a se perseguir. Deste modo, se optar por doar hoje, fará o bem não apenas para outras pessoas, mas também fará bem para você.

Espero que estas ideias o façam pensar sobre as consequências poderosas e positivas da escolha de doar hoje. Obrigado por seu tempo.

Autor: Erik Nook

Argumento 5 — O vencedor

Muitas pessoas nos países pobres sofrem de uma condição chamada tracoma.
O tracoma é a principal causa de cegueira evitável no mundo.
O tracoma começa com bactérias que entram nos olhos das crianças, especialmente das crianças que vivem em lugares quentes, com muita poeira e pouca água, geralmente onde também a higiene é difícil de ser mantida.

Se não for tratada, uma criança com bactérias de tracoma começará a sofrer de coceiras constantes nos olhos, sua visão começará a ficar embaçada e gradualmente se tornará cega, embora este processo possa levar muitos anos.
Existe um tratamento muito barato que cura essa condição antes que a cegueira se desenvolva. Com apenas cerca de 100 reais, doados a uma organização altamente eficaz, você pode evitar que alguém fique cego mais tarde na vida.

Quanto você pagaria para evitar que seu próprio filho ficasse cego? A maioria de nós pagaria $25.000, $250.000, ou até mais, se pudéssemos pagar. O sofrimento das crianças nos países pobres deve importar ao menos mais de um milésimo do sofrimento de nosso próprio filho. É por isso que é bom apoiar uma das organizações altamente eficazes que estão combatendo a cegueira causada pelo tracoma e precisam de mais doações para alcançar mais pessoas.

Autores: Peter Singer e Matthew Lindauer

Tradução e Adaptação: Fernando Moreno

Um novo estudo descobriu que dar tratamento desparasitante às crianças ainda lhes traz benefícios 20 anos depois

Quando você quer beber água, basta abrir a torneira. Mas e se você não tivesse água encanada? E se não pudesse beber água sem o risco de adoecer? A doebem apoia as intervenções mais eficazes do mundo para melhorar o ser humano e por isso apoia o trabalho da SCI. A SCI leva medicamentos que combatem parasitas e sistemas simples de purificação da água para os locais que não possuem saneamento básico. Como se isso não fosse bom por si só, esse trabalho tem impacto no desenvolvimento intelectual e escolarização das crianças que são medicadas, o que por sua vez acaba gerando benefícios mesmo quando já estão adultos, no mercado de trabalho, podendo ser medidos mesmo 20 anos depois!

Abaixo reproduzimos reportagem do jornal Vox que explica em detalhes os estudos que embasam essas descobertas:

Um novo estudo descobriu que dar tratamento desparasitante às crianças ainda lhes traz benefícios 20 anos depois

Os resultados são certamente impressionantes. A maioria das intervenções globais no âmbito da pobreza, mesmo que funcionem, não produzem uma taxa de retorno anual de 37% que dura décadas. É muito raro fazer qualquer coisa nas políticas públicas que ainda tenha efeitos significativos 20 anos depois — muito menos efeitos tão grandes.

Em 1998 e 1999, profissionais de saúde pública no Quênia começaram a tratar crianças em escolas quenianas contra parasitas intestinais comuns, incluindo ancilóstomos, lombrigas, tricurídeos e esquistossomose. Os parasitas, predominantes em áreas pobres, estavam a afetar a nutrição e a saúde das crianças. A esperança era que os programas de tratamento em massa permitissem que uma geração de crianças crescesse sem os efeitos negativos das infestações de parasitas.

Para quem não lembra, essa é a esquistossomose, também conhecida como barriga d’água.

Nos anos que se seguiram, as campanhas de desparasitação tornaram-se a iniciativa favorita dos governos nacionais, bem como dos doadores que procuravam fazer donativos eficazes. Algumas investigações sugerem que este tipo de campanhas pode ser das intervenções de saúde pública mais importantes do mundo.

Mas dificilmente tem havido unanimidade sobre a questão da sua eficácia. Estudos como o artigo original de 2003 dos economistas do desenvolvimento Edward Miguel e Michael Kremer daquele grupo de estudantes no Quênia encontraram resultados surpreendentes de campanhas de desparasitação em massa. Os estudantes tornaram-se mais saudáveis, permaneciam na escola por mais anos e ganhavam mais dinheiro quando adultos.

Mas outros criticaram esse estudo, e outros estudos de desparasitação em massa não encontraram resultados tão elevados. Como é o caso de muitas outras intervenções de saúde pública, o caso da desparasitação em massa tem algumas provas reais que a sustentam, mas ainda há questões sem resposta e questões em que a investigação existente, para nossa frustração, é contraditória.

Este ano, Miguel e Kremer, juntamente com os coautores Joan Hamory, Michael Walker e Sarah Baird, voltaram à amostra original do Quênia na qual descobriram pela primeira vez os impactos das campanhas de desparasitação em massa que potencialmente mudam vidas. Acompanhando os participantes originais 20 anos mais tarde, pretendiam responder à pergunta: Os benefícios que descobriram inicialmente com o tratamento desparasitante na infância — que incluía mais tempo na escola e maior rendimento quando adultos — continuam válidos?

Num novo artigo publicado na série de artigos de trabalho do NBER [National Bureau of Economic Research] em 3 de Agosto, descobriram que sim. “Indivíduos que foram desparasitados quando crianças experienciaram aumentos substanciais no seu consumo quando adultos e rendimentos”, conclui o estudo.

Os efeitos sobre os rendimentos e os gastos são ligeiramente menores do que os observados num acompanhamento depois de 10 anos, mas mesmo assim são muito notáveis. Dois ou três anos a mais de tratamentos de desparasitação na escola traduzem-se em rendimentos por hora 13% mais altos, gastos de consumo 14% mais altos e probabilidades significativamente maiores de trabalhar fora da agricultura (em empregos que pagam melhor e que dão mais oportunidades de desenvolvimento). Os investigadores calculam que o investimento na desparasitação das crianças do Quênia teve até agora uma taxa de retorno anual de 37%.

“O que isto demonstra é que, mesmo a longo prazo, estes investimentos na saúde infantil têm um impacto duradouro nos padrões de vida das pessoas”, disse-me o autor Edward Miguel.

Os resultados são certamente impressionantes. A maioria das intervenções globais no âmbito da pobreza, mesmo que funcionem, não produzem uma taxa de retorno anual de 37% que dura décadas (o que talvez seja um motivo para ceticismo face às descobertas). É muito raro fazer qualquer coisa nas políticas públicas que ainda tenha efeitos significativos 20 anos depois — muito menos efeitos tão grandes.

Por outro lado, quando as intervenções têm efeitos a longo prazo, tendem a ser intervenções de saúde. Crianças mais saudáveis ​​crescem mais, ficam mais tempo na escola, aprendem mais enquanto estão na escola e têm menos probabilidade de adoecer em adultos. Se alguma coisa pode ter um impacto para toda a vida, será este tipo de intervenções na saúde.

Sabia que é possível ajudar uma ONG que faz esse trabalho via doebem? Clique aqui!

O debate sobre o que o estudo do Quênia nos ensina acerca de parasitas

Este estudo é a contribuição mais recente num longo debate em curso no mundo da saúde pública global sobre os efeitos das campanhas de desparasitação.

Em 2015, os epidemiologistas britânicos Alexander Aiken e Calum Davey publicaram uma reanálise dos dados das escolas originais do Quênia e defenderam que, quando os dados são devidamente analisados, “encontramos poucas provas de alguns efeitos indiretos relatados anteriormente numa intervenção de desparasitação. Os efeitos sobre infecções por parasitas, estado nutricional, desempenho em exames e frequência escolar em crianças das escolas que passaram pela intervenção permaneceram praticamente inalterados.”

Outros investigadores objetaram. Claro, o primeiro estudo sobre parasitas não foi perfeito — a sua escolha das escolas não foi suficientemente aleatória, não havia placebos (o que significa que os alunos poderiam ter-se comportado de maneira diferente porque sabiam que estavam no grupo de tratamento) e houve alguns erros reais no artigo. Mas o seu resultado principal foi muito robusto. Desde então, as crianças expostas à desparasitação tiveram resultados de vida mensuravelmente bem melhores. A reanálise teve por base técnicas estatísticas que não encontrariam resultados significativos neste conjunto de dados, mesmo que houvesse resultados significativos a serem encontrados.

Kremer e Miguel também defenderam as suas descobertas. A desparasitação “é uma política altamente custo-eficaz com provas de vários estudos sobre resultados educacionais e econômicos”, disse Kremer à minha colega Julia Belluz em 2015. “Há provas sobre o impacto educacional e econômico a longo prazo da desparasitação em vários outros estudos: por exemplo, os trabalhos de Kevin Croke no Uganda, os trabalhos de Owen Ozier no Quênia, e o nosso próprio acompanhamento a longo prazo no Quênia.” (Kremer acabou ganhando o Prêmio Nobel de Economia em 2019).

O novo artigo acrescenta-se a esse conjunto de provas. Mas os críticos provavelmente ainda não irão ficar completamente satisfeitos.

Por exemplo, podem perguntar: Se a desparasitação teve efeitos tão grandes e profundos no Quênia, por que é que efeitos semelhantes não foram encontrados noutros lugares?

“Houve algumas revisões que encontraram um efeito modesto ou nenhum efeito”, concordou Miguel. Mas defendeu que eram principalmente de locais com menor incidência de parasitas, o que tornaria os efeitos muito mais difíceis de detectar.

“Se olharmos apenas para os cenários onde os estudos a curto prazo anteriores foram feitos, e olharmos apenas para os estudos com pelo menos uma incidência de 20%, a curto prazo há ganhos em nutrição”, disse-me. “Mas ninguém recorreu a dados experimentais de uma grande amostra e observou o que aconteceria ao longo do tempo”. E são os efeitos a longo prazo dos programas de desparasitação que são mais notáveis ​​e mais importantes.

Isto levanta outra questão: Como é que o tratamento de parasitas intestinais aumenta o rendimento duas décadas mais tarde? Especialmente quando os impactos médicos a curto prazo são mínimos? “Quanto mais segurança temos que os impactos a curto prazo são pequenos, mais difícil é acreditar que os impactos a longo prazo sejam grandes”, David Roodman, escreveu para a GiveWell, resumindo esta preocupação em 2016.

Alguns dos efeitos da desparasitação ocorrem porque os alunos permanecem mais tempo na escola, mas outras investigações sobre a permanência dos alunos na escola não encontraram efeitos dessa magnitude no rendimento 20 anos mais tarde. Portanto, se a desparasitação está realmente a criar benefícios tão grandes, provavelmente não poderão ser apenas uma consequência de manter os alunos na escola. O que pode ser responsável pelos restantes benefícios?

Uma possibilidade, disse-me Miguel, era os efeitos numa comunidade devido a todos os seus alunos terem permanecido na escola por mais tempo. Os alunos cuja escola fez programas de desparasitação provavelmente irão trabalhar num emprego sobre o qual ouviram um amigo da escola falar, por exemplo. Mas isto também não chega para explicar a dimensão total do efeito. E os alunos que receberam tratamento desparasitante têm agora mais probabilidade de deixar as comunidades rurais em que cresceram para viver numa grande cidade — talvez ser mais saudável faça com que os grandes riscos de se mudar para uma cidade pareçam valer mais a pena.

Seria realmente vantajoso perceber como a desparasitação tem os efeitos que tem no rendimento, mas talvez não sejamos capazes de determinar isso apenas com base em dados de estudos como este. “A análise não resolve a questão de porquê exatamente e por que meios a desparasitação afetou os resultados dos adultos”, reconhece o artigo. É difícil separar cada um dos diferentes caminhos possíveis pelos quais a desparasitação pode afetar as pessoas porque muitos deles estão relacionados — aumentos iniciais no rendimento podem levar a aumentos mais duradouros no rendimento, por exemplo, bem como pode levar as pessoas a serem mais propensas a migrarem, bem como pode levá-las a procurar outros cuidados médicos quando for necessário e levá-las a serem mais saudáveis.

Para além disso, há a questão de quão bem os resultados se generalizam. A maior parte do mundo não tem uma incidência de parasitas tão alta como a do Quênia no final dos anos 1990. Portanto, a desparasitação em massa irá revelar efeitos menores noutras comunidades — e de facto, isso é o que os estudos descobriram. E, mesmo deixando de lado preocupações específicas como essas, os investigadores muitas vezes descobrem que as intervenções funcionam menos bem quando ampliadas e aplicadas noutras regiões, mesmo quando não há um motivo claro para isto.

Ainda restam dúvidas sobre a desparasitação — mas continua a ser uma boa aposta para a saúde pública

Mas, mesmo com algumas perguntas ainda sem resposta, as provas que de facto temos sugerem que os benefícios potenciais a longo prazo são suficientemente grandes para tornar os programas de desparasitação em massa uma das melhores apostas que conhecemos para melhorar o desenvolvimento das crianças nos países pobres.

Estas encontram-se sistematicamente entre as principais instituições de caridade recomendadas pela GiveWell enquanto intervenções custo-eficazes. (A GiveWell considera provável que a desparasitação faça muito menos bem no caso típico do que os resultados medidos do Quênia, mas ainda a considera uma das melhores intervenções de saúde global). Provavelmente, nenhum estudo irá esclarecer todas as nossas dúvidas, mas os estudos podem ser reunidos para formular a melhor estimativa. A minha melhor estimativa é que, pelo menos nas áreas com alta incidência de parasitas, os programas de desparasitação nas escolas são uma ideia muito boa.

E os legisladores têm levado isso muito a sério nas últimas duas décadas, implementando programas de desparasitação em grande escala que trataram muitos dos alunos mais vulneráveis. “Alcançamos mais de 78% de todas as crianças vulneráveis ​​[no Quênia] a um custo médio de 45 cêntimos por criança por ano”, disse o porta-voz da Evidence Action, Gabriel Plata, que dirige o programa de desparasitação Deworm the World. Mas o problema está longe de ser resolvido. “Há uma estimativa de prevalência de 800 milhões de pessoas que ainda estão em risco”, disse Plata.

E as coisas estão a piorar. As escolas estão a ser encerradas em grande parte do mundo devido ao coronavírus, e isso significa que as intervenções de saúde pública que normalmente acontecem nas escolas não estão a acontecer de todo. O novo estudo do Quênia é apenas o nosso último lembrete de que isso se trata de uma perda enorme e de que as crianças afetadas ainda podem sofrer dessa desvantagem daqui a 20 anos.

“O nosso estudo sugere que temos de encontrar uma forma de fazer chegar esses serviços às crianças” disse-me Miguel, “ou então os custos a longo prazo podem ser muito elevados”.

Uma lição importante: Não precisamos de ter resolvido todas as questões sobre a desparasitação para procurar programas de desparasitação custo-eficazes com base nas provas que temos. Ainda há mais coisas para se aprender sobre a desparasitação. Elaborar uma política global de saúde pública é confuso, difícil, frustrante e sempre muito mais fácil em retrospectiva. Mas também é muito importante. Tudo o que podemos fazer é continuar a tentar, continuar a aprender, permanecer curiosos e seguir em frente com o nossa melhor estimativa atual.

Tradução reproduzida do site do Altruísmo Eficaz e publicado originalmente pela Vox

É hora de fazer a diferença

Por acaso você já quis devolver um pouco para a sociedade do que recebeu? Contudo, nunca se sentiu suficientemente confiante do que fazer, tendo pouco se engajado e sempre deixado isso para amanhã ? Esse texto foi escrito para você.

Esse texto foi escrito para você que se identifica com essas duas situações:

  1. Você quer fazer do mundo um lugar melhor e genuinamente ajudar ao próximo.
  2. Até hoje você fez nada ou pouco nesse sentido, tendo protelado se engajar o tanto quanto desejava.

Vamos agora supor algo inusitado: esse texto — apenas esse texto, que mal começou — era o que bastava e que conseguimos te convencer a sair da inação.

- Ok, é hora de fazer a diferença! Vou sair da inação e começar a ajudar!

- Humm… Ok, e agora, o que eu faço?

Alguns irão lhe recomendar doar ou ser voluntário para a ONG de um amigo ou conhecido que sabem que fazem um trabalho sério. E isso pode ser ótimo.

Alguns irão recomendar que ajude uma causa que tenha a sua cara, um tema que você tenha uma particular “paixão” ou “incômodo”. E talvez você já tenha essa causa favorita em mente — o que é ótimo então, dedique-se a atacar esse problema!

Mas talvez você não tenha nenhum problema especial em mente. Quer dizer… a gente sabe que há muitos problemas, uma infinidade deles, basta começar a pensar que a lista já fica longa. Mas qual merece sua atenção?

A proposta que iremos lhe apresentar pode parecer um pouco esquisita no começo: e se, ao invés de você partir de uma causa, partisse de uma série de perguntas?

O que o mundo precisa de mais urgente, hoje?

Como posso ajudar o mundo o máximo possível?

Qual a melhor maneira de ajudar ao próximo e reduzir o sofrimento alheio?

E se nossa paixão ou causa for ajudar aos outros o máximo possível, independente de como?

Essa proposta foi abraçada por pessoas como nós da doebem. Não estamos dizendo que esse é o único modo ou o modo mais correto de encararmos a questão de como ajudar. Cada um pode chegar a uma conclusão própria.

Mas, se você gostou dessa abordagem, que tal fazer dessas perguntas o guia para a resposta ao “Ok, e agora, o que eu faço?”

Sim, você pode dar início às suas próprias pesquisas para responder a essas perguntas. É o que mais recomendamos que você faça, aliás! Precisamos de mais pessoas tentando entender o que o mundo precisa de mais urgente. Precisamos de mais pessoas pensando qual a melhor maneira de ajudar ao próximo e reduzir o sofrimento alheio.

Mas também queremos chamar sua atenção para o fato de que algumas pessoas já começaram essa mesma busca. E talvez você julgue interessante entrar em contato com o que essas pessoas já fizeram, para não ter que começar nada do zero.

Como um dia disse Newton: “se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”

A proposta que lhe apresentamos agora já está tomando corpo há algum tempo. Não muito, apenas pouco mais de uma década. Pessoas que se conheceram online ou em universidades e que então passaram a dar forma a um conceito, que então virou um movimento e então uma comunidade: trata-se do Altruísmo Eficaz.

Esse é o convite que estamos lhe fazendo hoje. Convidamos você a saber um pouco mais sobre o Altruísmo Eficaz, clicando aqui.

Também convidamos você a conhecer um pouco mais sobre o trabalho feito pela doebem. Explore nosso site ou, se preferir, assista a esse vídeo.

E agora, o que você irá fazer?

8 ideias para celebrar seu aniversário enquanto a vacina não sai

Não, não é pra sair chamando os amigos pra festa e desrespeitar o isolamento social! Mesmo em casa você ainda pode comemorar seu aniversário e se divertir.

Festas de aniversário são especiais. Eles não apenas marcam a passagem de outra viagem fabulosa ao redor do sol, mas também são uma das melhores maneiras de reunir seus amigos e familiares para aproveitarem juntos sobremesas festivas, uns bons drinks e até uma decoração extravagante. Obviamente, este ano é diferente. Já que o nosso novo normal é o distanciamento social, as reuniões de pequeno e grande porte foram canceladas, deixando muitos aniversários para serem comemorados em casa.

Embora você não consiga dar a festa que planejou, não há motivo para pular a comemoração por completo. Se você ou alguém que você ama tiver um aniversário chegando, planeje uma dessas ideias alternativas de festa. Desde fazer um vídeo comemorativo para o aniversariante, até organizar uma festa por videoconferência, ou mesmo fazer da sua festa um evento filantrópico. Há muitas maneiras do aniversariante ter um dia especial. E quando essa pandemia terminar — e terminará — você terá todas as desculpas para dar a maior festa de aniversário de todos os tempos.

1. Mande um cartão

A maneira mais fácil de mostrar seu amor é com um cartão. Envie um cartão eletrônico: há inúmeros sites online para escolher qual tipo de cartão você enviará. Pode ser simples, mas as palavras corretas podem ser certeiras no coração do aniversariante.

2. Faça um vídeo para o aniversariante

Um modo de aprimorar um cartão de aniversário tradicional é torná-lo interativo. Use um serviço como o Tribute para criar uma montagem de vídeo personalizada. Peça aos amigos e familiares para gravar o vídeo de aniversário e o Tribute os reunirá e enviará ao convidado de honra. O presente certamente será lembrado por anos.

3. Organize uma festa de aniversário virtual no Zoom

Marque uma reunião no Zoom ou o aplicativo de videoconferência que preferir e convide todos os seus amigos para um happy hour virtual. A qualidade do vídeo no Zoom é muito boa e você pode ver o rosto de cada participante em uma visualização em grade simples. Deseja tornar as coisas realmente especiais? Marque com o aniversariante um horário um pouco mais tarde para entrar na sala, para que todos os outros possam cantar “Parabéns pra Você” assim que ele chegar.

4. Organize uma festa na Netflix

Se você gosta de filmes, agende uma festa virtual. Faça o download da extensão Netflix Party no Chrome e você e seus amigos poderão assistir ao mesmo filme do Netflix ao mesmo tempo. A extensão possui reprodução de vídeo sincronizada (para que a tela de todos pare e continue ao mesmo tempo); além disso, há uma sala de bate-papo para que você possa compartilhar suas impressões sobre o filme.

5. Envie um bolo ou outra sobremesa festiva

Uma ótima maneira de apoiar as empresas locais nesses tempos difíceis é solicitar serviços para entrega. Escolha uma doceria ou padaria local e envie para o aniversariante algo doce bem elaborado, como bolos, mousses, tortas, etc.

Se você é o aniversariante, que tal mandar cupcakes para a casa dos convidados de sua festa virtual?

6. Presenteie seu amigo com uma música ou outra criação artística

Uma boa opção se você tiver uma “veia artística” é dar um presente único ao aniversariante, totalmente criativo, que ela/ele nunca vai esquecer. Se você é mais inclinado para a música, escreva uma canção para seu amigo e apresente-a por bate-papo online. Mesmo que sua música não seja incrível, é a intenção (e a criatividade) que conta. Se todo mundo em seu grupo de amigos topar, peça a eles que acessem o bate-papo com algo que criaram para o aniversariante. Pode ser uma música, um poema, um discurso, uma dança ou uma obra de arte.

7. Se arrume para uma festa temática

Só porque você está comemorando seu aniversário em casa não significa que você precisa fazer isso de pijamas. Defina um tema para a sua festa virtual e peça a todos que se vistam de acordo. Os possíveis temas podem ser referência a uma época como os anos 20, 60, 80; um estilo de música como Hip Hop, Glam Metal ou Punk Rock — as opções são infinitas!

8. Faça esse dia ainda mais especial criando uma campanha de doações para quem mais precisa

Não é porque estamos experimentando isolamento social que não podemos seguir impactando o mundo a nossa volta de maneira positiva. Que tal fazer seu aniversário ser memorável criando um evento que impacte positivamente a vida de várias pessoas?

Com a doesuafesta você ganha um motivo extra para comemorar seu aniversário, mobilizando seus amigos para angariar doações. Simplesmente peça a eles que o presente que lhe dariam ou outros gastos que normalmente teriam organizando sua festa ou pagando a mesa do bar sejam usados para realizar uma doação.

Há um sentido maior aqui: fazer de sua festa um motivo para ajudar as pessoas neste momento crítico lhe ajudará a guardar essa data na memória não como um momento de privações ou frustração, mas de alegria por ter mobilizado pessoas para fazerem o bem.

É bem fácil e rápido criar uma festa no doesuafesta !

Adaptado deste site por Caio Freire e Fernando Moreno.

Este artigo foi originalmente publicado como "8 ideias para celebrar seu aniversário durante a pandemia" no blog da doebem no medium.

Na África, estamos transferindo dinheiro via celular para famílias afetadas pelo coronavírus.

Nesta crise, a GiveDirectly está ajudando com muita rapidez e segurança. A tecnologia via celular permite que o dinheiro seja rapidamente transferido e também diminui muito do contato pessoal. Colocar dinheiro diretamente na mão dos mais pobres novamente se prova uma intervenção altamente eficaz no combate à pobreza.

Traduzido do Site da GiveDirectly:

Estamos respondendo a essa crise fazendo o que fizemos por uma década: doando dinheiro.

Como os governos tem imposto o distanciamento social para limitar a disseminação do COVID-19, muitas famílias de repente se viram sem mais conseguir ganhar o pão diário. Poucos tem dinheiro poupado para enfrentar esta tempestade, menos ainda para prestar cuidados se um membro da família adoecer. Para piorar a situação, muitos dos programas de ajuda tradicionais, que dependem da interação cara-a-cara, estão com atividades limitadas diante do risco de transmissão do coronavírus.

Este é o momento do dinheiro digital.

Para proteger a segurança dos destinatários e da equipe, todos os processos de inscrição e pagamento serão conduzidos remotamente de ponta a ponta.

Temos como alvo trabalhadores do setor informal de baixa renda em áreas urbanas.

Vamos nos concentrar primeiro nas áreas urbanas, onde acreditamos que os impactos econômicos do COVID-19 se farão sentir primeiro e com maior força. Coordenaremos com governos locais e ONGs para identificar e priorizar grupos carentes. Para começar, estamos inscrevendo destinatários das favelas de Nairóbi — principalmente jovens — em parceria com o SHOFCO.

Estamos usando um modelo de renda básica como uma solução de assistência de curto prazo.

Cada família receberá de 25 a 50 dólares por mês (dependendo da localização), inicialmente por 3 meses. Esperamos que a principal limitação de quantas pessoas poderemos ajudar dependerá do quanto conseguiremos arrecadar em doações.

Doe agora. Diretamente pelo site da GiveDirectly ou via doebem, como preferir.

Conceitos do Altruísmo Eficaz: Pobreza Global

1. Pobreza global

Segundo a mais recente estimativa do Banco Mundial, em 2013 cerca de 767 milhões de pessoas viviam com menos do equivalente a 1,90 US$ por dia, já ajustado para levar em conta o poder de compra (World Bank 2016). A falta de recursos econômicos tem consequência direta sobre muitos aspectos das vidas das pessoas, incluindo o acesso a educação e cuidado médico. Pobreza e saúde precária também comprometem seriamente o bem-estar de milhões de pessoas. É por isso que a pobreza econômica e a carga global de doença são áreas de foco primordiais para o altruísmo eficaz.

Como resultado da crescente desigualdade global, o custo de prevenir a morte é muito menor em países de baixa renda. Por exemplo, a GiveWell estima o custo por vida de uma criança salva, por meio de uma distribuição de redes mosquiteiras financiada pela Against Malaria Foundation, em cerca de 3.500 US$ (Give Well 2016). Em contraste, o Serviço Nacional de Saúde Britânico considera custo-efetivo gastar 25.000 US$-37.000 EUR para cada ano de vida saudável salva (Rigby 2014). Isso quer dizer que doações que trabalham na pobreza global e na saúde global podem ser muito custo-efetivas. A desigualdade global também afeta o impacto das transferências monetárias: dada a extensão da desigualdade global, um dólar para uma pessoa vivendo em pobreza extrema vale 66 vezes o que vale para o americano médio. (Weyl 2014)

Alguns se preocupam que empregar o auxílio para lidar com estas questões seja problemático. O altruísmo eficaz tem buscado tratar de várias destas preocupações, incluindo preocupações sobre efetividade do auxílio auxílio e paternalismo.

2. Auxílio e paternalismo

Uma objeção popular a programas de auxílio é que eles envolvem uma forma injustificável de paternalismo. Segundo esta objeção, programas de auxílio pressupõem que agências internacionais de desenvolvimento e doadores de países de alta renda conseguem entender e resolver os problemas encarados por indivíduos em países em desenvolvimento melhor do que estes indivíduos ou os seus governos.

Uma abordagem para tratar desta preocupação é focar em áreas que forasteiros possuem um bom registro de contribuir efetivamente com especialidade focalizada, como saúde e nutrição. Isto então capacitaria cidadãos de países em desenvolvimento a melhorar áreas em que forasteiros carecem de tal especialidade. Outra abordagem é favorecer transferências monetárias incondicionais. Isso daria aos recipientes a capacidade de decidir como melhor fazer uso destes recursos.

3.Efetividade do auxílio

Há certa controvérsia sobre se, e em que medida, programas de auxílio internacional ajudam os pobres. Alguns críticos, como Dambisa Moyo e William Easterly, defendem que tais programas têm sido extremamente custosos e em grande parte ineficazes. (Moyo 2009; Easterly 2006).

Uma réplica a estas críticas é que os críticos focam em grande parte em programas de auxílio de governo para governo, em vez de simples intervenções que ajudam indivíduos diretamente, como programas de controle de malária, desparasitação, programas de micronutrientes e transferências monetárias (Karnofsky 2016). Outra réplica é que, ao considerar o custo do auxílio (1 trilhão US$), os críticos não levam em conta o número de pessoas afetadas (400 milhões) e o tempo decorrido (sessenta anos). Quando estes ajustes são feitos, acaba que o gasto total em auxílio na África equivale a 40 US$ por pessoa por ano. Uma terceira réplica é que os críticos tendem a focar em programas com efetividade média ou abaixo da média, em vez de nos maiores sucessos de auxílio, como o programa de erradicação da varíola. Mesmo que programas de auxílio internacional não tivessem realizado nada além de erradicar a varíola, eles teriam uma custo-efetividade de uma vida salva por 40.000 US$ (MacAskill 2015).

4. Pobreza econômica

A pobreza é um conceito multidimensional, incorporando uma série de fatores diferentes que impactam a vida dos pobres. O Banco Mundial usa uma linha de pobreza internacional de US$ 1,90 por dia (ajustado pelo poder de compra local) e estima que, em 2013, 10,7% da população mundial vivia abaixo dessa linha (Banco Mundial 2016). A falta de recursos econômicos tem consequências diretas em muitos outros aspectos da vida, incluindo segurança alimentar e acesso a serviços de saúde e água. Demonstrou-se que as transferências em dinheiro são uma maneira eficaz de combater a pobreza econômica em várias circunstâncias.

5.A carga global de doenças

A carga global de doenças é a carga coletiva de doenças produzida por todas as doenças pelo mundo. A Carga Global de Doenças (CGD) também é um programa de pesquisa colaborativo que coleta informação acerca da mortalidade e incapacitação causadas por diferentes doenças, danos e fatores de risco.

Para quantificar a perda de saúde, a CGD confia primeiramente no ano de vida ajustado para levar em conta as incapacitações (DALY ou Esperança de vida corrigida pela incapacidade EVCI). Esta medida permite comparações ao longo do tempo, entre diversos grupos etários e entre populações.

As descobertas da CGD são regularmente utilizadas para estabelecer a agenda de saúde global, e para tomar decisões concernentes à alocação de recursos escassos. Organizações que empregam a abordagem da importância, tratabilidade e negligencia frequentemente confiam na CGD para avaliar a promessa de lidar com várias doenças.

Intervenções custo-efetivas direcionadas à redução da carga global de doenças incluem programas de controle de maláriadesparasitaçãoprogramas de micronutrientes e outros.

Leitura adicional

80,000 Horas. Saúde nos Países Pobres.

80,000 Horas. Fumo nos países em desenvolvimento.

Centre for Effective Altruism. Cause profile: Global Health and Development

Easterly, William. 2006. The white man’s burden: why the West’s efforts to aid the rest have done so much ill and so little good. New York: Penguin Press. (Critica o auxílio governamental como perdulário e fútil, e desenvolve algumas sugestões construtivas).

Give Well. 2016. Against Malaria Foundation (AMF)Versão Resumida em Português aqui.

Givewell. Your Dollar Goes Further Overseas.

Hillebrandt, Hauke. 2015. The cost of fighting Malaria, Malnutrition, Neglected Tropical Diseases, HIV/AIDS, and providing Global Surgery, compared to spending on Global Health.

Hillebrandt, Hauke. 2016. Median GDP per capita.

Institute of Health Metrics and Evaluation. 2016. About GBD. (Dá mais informações sobre o projeto Carga Global de Doenças).

Institute of Health Metrics and Evaluation. 2016. GBD Compare | Viz HubYou. (Uma ferramenta interativa muito interessante para explorar os resultados do estudo da Carga Global de Doenças).

Karnofsky, Holden. 2012. How not to be a “white in shining armor”.

Karnofsky, Holden. 2016. The lack of controversy over well-targeted aid. (Um blog post do GiveWell que explica a efetividade de auxílios bem-direcionados não é controversa).

Kaufman, Jeff. 2013. The Unintuitive Power Laws of Giving.

MacAskill, William. 2015. Doing good better: How effective altruism can help you make a difference. New York: Gotham Books, ch. 3. (Critica os céticos sobre auxílio por não considerarem o impacto dos programas de auxílio mais custo-efetivos, como a eliminação da varíola).

Moyo, Dambisa. 2009. New York: Farrar, Straus and Giroux. Dead aid: why aid is not working and how there is a better way for Africa. (Defende que recipientes de auxílios governamentais não ficam melhor como resultado deles, mas muito pior).

Ord, Toby. 2013. The Moral Imperative toward Cost-Effectiveness in Global Health.

Rigby, Jennifer. 2014. Why the NHS thinks a healthy year of life is worth £20,000.

Weyl, E Glen. 2015. The openness-equality trade-off in global redistribution.

The Economic Journal, forthcoming.

Wiblin, Robert. 2016. Is global health the most pressing problem to work on?

World Bank. 2016. Poverty and Shared Prosperity 2016: Taking on Inequality.

Tradução: Luan Rafael Marques

Revisão: Fernando Moreno

Os textos acima foram traduzidos dos seguintes links:

Effective Altruism concepts: Global Poverty

Effective Altruism concepts: Aid and Paternalism

Effective Altruism concepts: Aid Effectiveness

Effective Altruism concepts: The Global Burden of Disease

Publicado originalmente aqui.

Melinda Gates: vendo os vieses de gênero

O Natal na vila Dimi, uma comunidade agrícola remota no Malauí, todos se reuniram para comemorar, exceto uma mulher, Patrícia, que estava em um campo a uma milha de distância, ajoelhada na terra úmida em seu terreno de meio hectare, plantando amendoim.

Enquanto o resto de sua vila compartilhava a comida e fazia festa, Patrícia trabalhava com rigoroso cuidado, certificando-se de que suas sementes se alinhassem em fileiras perfeitas — 75 centímetros entre cada linha, 10 centímetros entre cada planta.

Seis meses depois, visitei Patrícia no terreno de sua fazenda e lhe disse: “Me contaram como você passou o dia de Natal!” Ela riu e disse: “Foi quando as chuvas chegaram!” Ela sabia que sua colheita seria melhor se plantasse quando o chão ainda estava úmido, e foi o que ela fez. Você pensaria que alguém com a dedicação de Patrícia seria extremamente bem-sucedida, mas ela passava dificuldades há anos. Apesar de seu trabalho meticuloso, até o básico estava fora do alcance para ela e sua família. Ela não tinha dinheiro para as taxas de matrícula de seus filhos, o tipo de investimento que pode ajudar a quebrar o ciclo da pobreza, ou mesmo dinheiro para comprar um conjunto de panelas, o que poderia facilitar sua vida.

Os agricultores precisam de cinco coisas para ter sucesso: boas terras, boas sementes, material agrícola, tempo e know-how. Havia barreiras entre Patrícia e todas essas coisas, simplesmente porque ela era uma mulher.

Por um lado, e isso é comum na África subsaariana, a tradição do Malawi na maioria das comunidades determina que as mulheres não podem herdar terras (As leis recentemente aprovadas no Malawi concedem às mulheres direitos iguais de propriedade, mas os costumes são mais lentos em mudar). Portanto, Patrícia não possuía sua própria terra. Ela a alugá-la de outro. Era uma despesa que a impedia de investir na terra para torná-la mais produtiva.

Além disso, como Patrícia é uma mulher, ela não tem voz nos gastos da família. Durante anos, o marido decidiu o que a família deveria gastar — e se isso não incluísse suprimentos agrícolas para Patrícia, não havia nada que ela pudesse fazer.

O marido também decidia como Patrícia passava o tempo. Ela fez uma imitação engraçada dele lhe dando ordens: “Vá e faça isso, vá e faça isso, vá e faça isso, vá e faça isso o tempo todo!” Patrícia passava os dias cortando lenha, buscando água, cozinhando refeições, limpando os pratos e cuidando das crianças. Isso lhe dá menos tempo para gastar em suas colheitas ou para levar seus produtos ao mercado para lhe garantir o melhor preço. E se ela quisesse contratar ajuda, os trabalhadores não trabalhariam tanto por ela como por um homem. Homens no Malauí não gostam de receber ordens de mulheres.

Surpreendentemente, até as sementes que Patrícia estava plantando foram afetadas por seu sexo. As organizações de desenvolvimento trabalham há muito tempo com os agricultores para produzir sementes que produzem mais ou atraem menos pragas. Por décadas, porém, quando esses grupos iam consultar os líderes da comunidade agrícola, eles conversavam apenas com homens, e os homens se concentravam em cultivar apenas as colheitas que eram capazes de vender. Quase ninguém estava criando sementes para agricultoras como Patrícia, que também se concentram em alimentar suas famílias e por isso costumam cultivar plantas mais nutritivas, como grão de bico e vegetais.

Governos e organizações de desenvolvimento oferecem sessões frequentes de treinamento para agricultores. Mas as mulheres têm menos liberdade para sair de casa para participar dessas sessões ou até para conversar com os instrutores, que tendem a ser homens. Quando as organizações tentaram usar a tecnologia para espalhar informações — enviando dicas por mensagem de texto ou pelo rádio — descobriram que os homens controlavam essa tecnologia. Se as famílias tinham um telefone celular, os homens o carregavam. Quando as famílias ouviam o rádio, os homens estavam controlando qual rádio era sintonizada.

Quando você soma tudo, começa a entender como uma agricultora inteligente e trabalhadora como Patrícia nunca foi capaz de progredir. Havia uma barreira atrás da outra bloqueando seu caminho, porque ela era uma mulher.

Texto de Melinda Gates, retirado e do livro recém lançado “The Moment of Lift”.

Tradução: Fernando Moreno.

Uma organização implementou um “pacote de incentivos” no interior do Quênia — e transformou a economia

Essa é uma tradução desse artigo da Vox, por Dylan Matthews. A tradução foi publicada originalmente aqui.

A avaliação mais ambiciosa feita até hoje da GiveDirectly é um divisor de águas.

Há cerca de uma década, a organização GiveDirectly distribui dinheiro diretamente a residentes pobres na África Subsaariana, começando no Quênia e depois expandindo para Uganda, Malaui, Ruanda, Libéria, a República Democrática do Congo e o Marrocos.

A organização foi fundada por economistas e tem estudado o impacto de seus programas desde o primeiro dia. Mas a pesquisa se focava de maneira restrita nos beneficiários: eles ficavam melhor, igual, ou pior que as pessoas que não recebiam dinheiro?

Agora, um grupo de pesquisa lançou um estudo de larga escala de um programa da GiveDirectly que distribuiu mais de 10 milhões de dólares em dinheiro para moradores rurais do distrito de Siaya, no Quênia, perto do lago Victoria. Mas desta vez, o foco não foi nos indivíduos que receberam ajuda. Ao invés disso, os pesquisadores queriam descobrir que efeito o dinheiro tinha sobre a região do Quênia onde o auxílio estava sendo distribuído — o primeiro grande estudo a testar efeitos de “equilíbrio geral” desta política.

A GiveDirectly deu cerca de US$1.000 cada (ou US$1.871 em termos de poder de compra) a mais de 10.500 residências, por meio de três transferências no período de mais ou menos oito meses. O programa equivaleu-se à cerca de 15 por cento do PIB local da região. Em termos de comparação, isso é cerca de três vezes mais que o incentivo econômico — relativo ao tamanho do país — que o pacote de 2008–2009 nos EUA.

Então os pesquisadores conduziram extensas e repetidas pesquisas, não apenas de beneficiários, mas com negócios locais e empregadores também, para ver como salários e preços mudavam. Dado o número de pessoas que estavam coletando informações, o estudo como um todo custou para mais de um milhão de dólares para ser feito, de acordo com Ted Miguel, um coautor do artigo e economista na UC Berkeley. (Miguel escreveu o artigo com Dennis Egger, Johannes Haushofer, Paul Niehaus e Michael Walker.)

Eles descobriram que as transferências de dinheiro não foram apenas positivas aos beneficiários; elas também ajudaram pessoas em vilas próximas porque os beneficiários gastaram mais dinheiro, uma parte do qual foi para os negócios dos vizinhos. De modo contrário a alguns receios, não houve efeitos inflacionários significativos, e não houve efeitos de inveja ou ciúmes pelos quais pessoas próximas que não receberam dinheiro se sentissem piores após a intervenção.

O mais surpreendente de tudo, o estudo estima um “multiplicador fiscal” de 2,6 para esta área do Quênia, o que implica que cada dólar investido em estímulo fiscal fará a economia local crescer em US$2,60. Isso é um pouco mais que o multiplicador estimado em lugares como os EUA quando em recessão. Mas “existem muitos países de renda baixa e média que se parecem mais com o Quênia que com os EUA”, disse Miguel. “Esses números podem ser muito úteis para entender multiplicadores fiscais em muitos lugares ao redor do mundo.”

Esta é a coisa maior e mais surpreendente do estudo. Ele não apenas avalia uma organização de caridade específica. Ele traça uma estratégia que pode ser útil de maneira mais geral para que países pobres escapem da pobreza extrema. Essa estratégia é surpreendentemente simples e bem conhecida de pessoas em países ricos: estímulo keynesiano.

É uma estratégia de que ajuda externa de países ricos a países pobres poderia ser mais utilizada no futuro — se este estudo for alguma indicação, para efeitos positivos. Em particular, o estudo sugere que programas de renda básica em países pobres, como considerado pelo atual governo indiano, poderiam ser mais que ferramentas de alívio da pobreza — eles também podem ter benefícios econômicos reais. E em países como a Nigéria ou Angola, com muita riqueza de recursos naturais que pode ser usada para financiar renda básica sem distorcer a economia, a promessa é especialmente grande.

Estudos anteriores trouxeram à luz desvantagens da abordagem da GiveDirectly

Esta não é a primeira grande avaliação de um programa da GiveDirectly. Haushofer e seu colega economista Jeremy Shapiro conduziram um estudo aleatorizado de curto prazo do programa da GiveDirectly no interior do Quênia de 2011 a 2013, se focando em efeitos nove meses depois de os moradores das comunidades terem recebido ou US$404 ou US$1.525 em espécie.

A avaliação de curto prazo descobriu que as vidas dos beneficiários melhoraram imensamente: a fome despencou, o investimento e a renda da agricultura e de pequenos empreendimentos aumentou (o que sugere que as transferências incentivaram o crescimento econômico), a propriedade de bens de valor como telhados de ferro e gado dispararam, e os beneficiários estavam mais felizes em um número de métricas diferentes.

Mas pesquisas subsequentes olharam para efeitos colaterais da transferência de dinheiro — e isso complicou a imagem.

Primeiramente, Haushofer, Shapiro e James Reisinger publicaram um outro artigo que descobriu que, mesmo no curto prazo, satisfação com a vida — medida pela pergunta: “considerando todas as coisas, quão satisfeita (o) você está com sua vida no geral esses dias?” numa escala de 1 a 10 — caiu entre os moradores dos vilarejos que não receberam dinheiro, mas cujos vizinhos sim. Isso sugere que as vantagens aos beneficiários podem ter trazido custos reais para os não-beneficiários, que tiveram que assistir a seus vizinhos florescerem enquanto eles permaneciam na mesma.

Daí em 2018, Haushofer e Shapiro lançaram um artigo de acompanhamento que media os efeitos depois de três anos, o qual incitou um grande debate entre a GiveDirectly e outros economistas, como Berk Özler, do Banco Mundial.

O debate tratava dos diferentes resultados a que chegaram Haushofer e Shapiro comparando-se dentro de uma vila, ao invés de entre vilas. Dentro de uma dada vila, as pessoas que receberam dinheiro pareciam significativamente melhor depois de três anos; elas tinham US$400 a mais em bens em média e gastavam US$47 a mais por mês, o que significa que elas tinham uma qualidade de vida significativamente melhor anos após receber o dinheiro.

Mas se se comparasse vilas onde algumas pessoas receberam dinheiro com vilas onde ninguém recebeu, as primeiras não ficaram muito melhores. Isso fez com que algumas pessoas, como Özler, se preocupassem que o programa não tinha ajudado os beneficiários tanto assim, mas que tivesse prejudicado seus vizinhos substancialmente, fazendo com que ele não fosse um sucesso de verdade. Isso não é um resultado inédito tampouco, Özler e coautores encontraram efeitos colaterais negativos em termos de satisfação de vida de um programa de transferência de dinheiro no Malaui, e um estudo recente do Banco Mundial descobriu que um programa do mesmo tipo aumentava o atraso do crescimento das crianças em residências que não recebiam o dinheiro, um efeito colateral negativo realmente sério.

Outros contestaram a interpretação de Özler, sugerindo que os resultados estranhos teriam origem em dados ruins; Sandefur nota que a coleta de dados foi feita de modo diferente em vilas de controle.

GiveWell, que avalia organizações de caridade e que recomenda a GiveDirectly como causa por muitos anos, optou por esperar até que outro artigo, com uma amostra maior e que testasse os efeitos colaterais da GiveDirectly, saísse, ao invés de se posicionar nesta disputa específica, observando que novas evidências poderiam ajudar a resolver a discordância. O estudo mais abrangente, a avaliação do “equilíbrio geral”, é o novo artigo científico sobre o qual o presente artigo trata.

O novo estudo é uma resposta a essas críticas anteriores

Então, o que dizem as novas evidências? O novo artigo não aplicou nenhuma aleatoriedade interna nas vilas — todos em condições para transferências em cada vila recebiam as transferências. Isso por si só reduzia as chances de efeitos colaterais negativos por criar menos “perdedores” na mesma vila. Mas residências nas condições previstas representavam apenas um terço em suas vilas, normalmente; para poder receber, os beneficiários tinham que viver sob telhados de sapê, um teste bem simples de pobreza (residências mais ricas na área rural do Quênia tipicamente têm telhados de metal).

Ainda era possível que seus vizinhos mais ricos poderiam ter ficado piores psicológica ou economicamente pelas transferências das maneiras que os estudos anteriores sugeriam. O design do estudo também deixou em aberto a possibilidade que as pessoas nas vilas de controle poderiam ficar piores. Talvez o dinheiro desse início à inflação que as deixaria piores, ou então elas ficassem sabendo disso e teriam consequentemente uma pior saúde psicológica.

Nenhuma dessas coisas aconteceu. As residências que não receberam transferências melhoraram substancialmente — elas gastaram em média US$334 a mais no ano e meio seguinte, o que é similar ao aumento nas residências que receberam o dinheiro. Isso não é o efeito de se comparar com os vizinhos, em que se aumenta o gasto e reduz a poupança para se manter no mesmo nível dos pares: suas poupanças, mais que qualquer coisa, aumentaram. Em vez disso, os gastos pareciam ser financiados em grande medida por um aumento substancial da renda anual, principalmente por salários.

Basicamente, a economia geral da região se expandiu, e tanto os beneficiários como os não-beneficiários melhoraram de vida porque as transferências permitiram gastos que ajudaram seus empregadores e seus próprios negócios.

Não houve efeitos significativos no bem-estar psicológico dos não-beneficiários; o efeito estimado na verdade foi positivo, mas não significativo.

Basicamente, os efeitos colaterais negativos que estudos anteriores sugeriam que fossem possíveis não apareceram.

Isto, novamente, é parcialmente devido ao design do estudo. Inveja entre residências equivalentemente pobres na mesma vila era menos provável desta vez, porque todas as residências elegíveis foram pagas. Mas havia ainda milhares de vizinhos levemente mais ricos que poderiam, teoricamente, ter sido afetados — mas não o foram.

“Isso alterou muito meus pré-julgamentos” disse Haushofer. “Este novo estudo… nós não apenas não vemos nenhum indício de efeitos colaterais negativos, nós vemos muitos indícios de efeitos colaterais positivos, até em resultados psicológicos. Não está inteiramente claro por que isso aconteceu. Qualquer que seja o motivo, nós conseguimos impulsionar a economia local e gerar grandes repercussões econômicas, e os efeitos psicológicos parecem tê-las acompanhado.”

O estudo fornece evidências para um modelo específico do que falta na economia de países em desenvolvimento

A história apresentada pelo estudo é um pouco intrigante da perspectiva da economia de desenvolvimento tradicional. Se uma vila rural no Quênia for um mercado fechado — isto é, ela não faz nenhum comércio com outras vilas ou cidades — então lançar mais dinheiro ali deveria levar à inflação. O dinheiro por si só não aumenta a habilidade da vila de produzir bens e serviços úteis — ele não cria novos cortes de cabelo ou alfaiatarias de vestidos ou telhados de metal do nada. Daí que se teria mais dinheiro para o mesmo número de bens, o que significa que o preço dos bens tem que aumentar.

Se a vila é um mercado aberto, por outro lado, então pode-se não ver efeito nos preços — o preço dos bens é definido a nível local ou nacional, por isso injetar dinheiro numa vila específica poderia fazê-la melhorar sem provocar inflação. A maioria das vilas no estudo eram uma mistura de ambos, com muitos bens sendo trazidos do resto do Quênia, mas outros bens e serviços — como carpintaria ou alfaiataria ou comidas perecíveis — sendo proporcionados localmente.

O que é intrigante neste novo artigo é que ele encontra efeitos inflacionários mínimos — aumento de cerca 0,1 por cento nos preços, em média — mesmo em bens e serviços “não-comerciáveis”, que são produzidos localmente. Seema Jayachandran, uma economista da Universidade do Noroeste dos EUA que encontrou pequenos efeitos inflacionários de um programa de transferência no México no trabalho dela, diz que inflação mínima é compreensível para bens comercializáveis, mas não para serviços locais. “As pessoas talvez contratassem um carpinteiro para construir algum móvel. O carpinteiro tinha mais dinheiro, então comia num restaurante local, e assim por diante”, disse ela. “Esses serviços usam vários insumos, então esperamos que alguns deles serão escassos. E quando há maior demanda por recursos escassos, esperamos que os preços aumentem, tanto dos insumos, como, em seguida, do produto ou serviço final.”

Que os preços não tenham aumentado é especialmente confuso se considerarmos os benefícios em renda para as pessoas que não recebiam as transferências. Isso indica que muito do gasto a mais foi para bens e serviços feitos localmente, bens e serviços os quais deveriam ter aumentado como resultado, pois o trabalho e outros insumos requeridos para fazê-los são escassos. “Como se reconcilia o grande multiplicador da renda local, por um lado, com os efeitos desprezíveis sobre preços de bens não-comercializáveis, por outro lado?” pergunta Jayachandran. “Eu não quero dizer que tem algo de errado com o artigo, mas há uma tensão nos resultados que o artigo não explica totalmente.”

A tensão pode ser explicada, em parte, por problemas nos dados: a pesquisa de preços conduzida pelos pesquisadores, mesmo que rigorosa, focou-se mais em bens que serviços, e por isso talvez tenha deixado escapar se o custo da carpintaria ou alfaiataria por exemplo aumentaram.

Mas Gharand Bryan, um professor de economia na London School of Economics que estuda programas de transferência de dinheiro, levantou uma outra possibilidade intrigante. Pode ser que insumos-chave para esses serviços — pessoas, trabalho — não fossem na verdade escassos.

“Qualquer um que tenha passado um tempo em vilas parecidas terá visto a grande quantidade de ‘trabalho ocioso.’ É uma característica própria de muitos países em desenvolvimento que não haja tanto assim para se fazer.” Bryan observa. “Neste caso, o que o dinheiro parece fazer é encorajar as pessoas a gastar um pouco, e isso causa um aumento no número de horas de trabalho produtivas na economia.” Afora a redução no tempo de lazer, isso é totalmente positivo — e poderia explicar por que não houve efeitos inflacionários.

Se esta estória for verdade — e eu devo deixar claro que este é apenas um estudo e nós não sabemos se esta estória se confirma para a maioria das vilas rurais na África Subsaariana, ou até mesmo no Quênia — isso sugere que há muita “folga” na economia por via de regra, e um pouco de estímulo keynesiano que desperte recursos subutilizados na economia, como trabalho excedente, poderia fazer um bem considerável.

“Apesar da facilidade em explicar o resultado, ele me surpreendeu,” Bryan acrescenta. “E se for verdade fora dessas vilas no Quênia, isso dá a todos interessados em desenvolvimento algo sobre o que refletir: se países em desenvolvimento são mais amplamente caracterizados por trabalho excedente (e eu suspeito que sejam), então será que essa nova evidência sugere que possam haver grandes ganhos agregados simplesmente por colocar dinheiro nas economias?”

Jayachandran adverte que países pobres ainda estão sujeitos a restrições orçamentárias, e não podem só pegar emprestando para fazer incentivos indefinidamente. “Um país em desenvolvimento poderia taxar os ricos para dar dinheiro aos mais pobres, mas daí os efeitos agregados na economia dependem tanto do estímulo negativo do gasto menor dos cidadãos mais ricos e do estímulo positivo do gasto maior dos cidadãos mais pobres”, explica ela. “O efeito líquido do incentivo pode ser positivo ou negativo.”

Mas em países que têm a capacidade para déficits que financiem o incentivo, esta pesquisa é incrivelmente útil.

“Um dos comentários que eu mais escuto de elaboradores de políticas públicas é que desenvolver uma infraestrutura de proteção social estabelecida (isto é, a lista direcionada de beneficiários, sistemas de pagamentos eletrônicos etc.) não se trata apenas de alívio de políticas,” diz Rema Hanna, uma economista e professora na Harvard Kennedy School que assessora governos de países em desenvolvimento sobre programas de transferência e outros tipos de redes de proteção. “Ter sistemas vigorando pode permitir ao governo responder mais rapidamente a desacelerações econômicas através de aumento de transferências de dinheiro para impulsionar a demanda.”

“Para mim, este estudo é, portanto, muito importante no sentido em que ele tenta de maneira verossímil medir este efeito, e nos dá uma sensação da magnitude de como as transferências podem ser usadas como incentivo.”

Além do mais, a estória keynesiana oferece um caminho para ajuda externa que não impõe taxas sobre a população local e, portanto, não é sujeita a restrições orçamentárias para o país de renda baixa em questão. Isso sugere que transferências diretas de governos de países ricos e ONGs a países pobres que sejam usadas como transferências de dinheiro, ou até mesmo empréstimos subsidiados que sejam usados para expandir programas de transferência de dinheiro, podem fazer mais que apenas ajudar os beneficiários por um curto período. Elas podem ajudar a acelerar o processo de desenvolvimento de maneira mais geral.

Isso é uma ideia especulativa. Mais pesquisa é necessária. Mas se estiver certa, é incrivelmente animadora.

Tradução: Bruno Gabellini. Revisão: Fernando Moreno.

GiveDirectly: dinheiro diretamente nas mãos dos mais pobres do mundo

A missão da GiveDirectly é realizar transferências diretas de dinheiro, incondicionais, para as pessoas mais pobres do mundo.

Por transferências diretas eles querem dizer sem intermediários. A GiveDirectly trabalha diretamente com as pessoas que receberão o dinheiro, impedindo assim que o dinheiro seja desviado por corrupção ou ineficiências administrativas, por exemplo.

Por mais pobres do mundo eles querem dizer pessoas em extrema pobreza, o que significa viver com menos de um dólar e noventa centavos por dia, de acordo com a ONU. Isso já leva em conta as diferenças do que você consegue comprar com um dólar aqui, nos EUA ou no Quênia, por exemplo. Tudo isso é nivelado numa régua que os economistas chamam de paridade de poder de compra.

Por transferências incondicionais podemos dizer duas coisas: que não existe nenhuma ação que a pessoa deve cumprir para receber o dinheiro. Por ex, alguns programas de transferência condicionam os repasses a presença das crianças nas escolas ou que os pais as levem para tomar vacinas. Geralmente esses programas são realizados por governos e o objetivo principal é a realização da condição.

Mas também podemos observar que as transferências são incondicionais no sentido de que não existe quaisquer restrições de como as pessoas usarão o dinheiro. Elas podem fazer o que julgarem melhor. Essa talvez seja a parte que cause mais questionamentos: Será que as pessoas gastarão bem o dinheiro? Vejamos então como algumas pessoas tem usado suas transferências:

“Durante muito tempo, Gladys — uma das beneficiadas no Quênia — sonhava em melhorar seu projeto de criação de galinhas para ter uma vida melhor. Por isso, quando ela recebeu a transferências da GiveDirectly, decidiu comprar 120 filhotes. Nas últimas duas semanas, ela já coletou mais de 100 ovos. Ela espera obter bons retornos, já que um ovo é vendido a vinte centavos de dólar e a temporada de festas está chegando. Gladys obteve benefícios não apenas da venda dos ovos como também do esterco do frango, que ela pode usar como fertilizante em seu jardim. Cultivando couve, espinafre e abóbora frescos e nutritivos”.

Samson, um beneficiário do programa Urban Youth da GiveDirectly em Nairobi, investiu o dinheiro que ganhou na abertura de uma barbearia — ele trabalha por conta própria desde fevereiro e usa seus ganhos da loja para pagar suas contas.

Rose decidiu gastar sua primeira transferência na compra de chapas de ferro para um novo telhado, porque ela atualmente vive em uma casa de telhado de palha que goteja quando chove. Ela também comprou um saco de milho para alimentar sua família.

Nancy gastou sua primeira transferência de dinheiro da GiveDirectly comprando um barco de pesca e a segunda transferência comprando um motor para o barco. Agora, ao invés de ganhar 1 dólar por dia lavando roupas, ela ganha cerca de 20 a 80 dólares por dia vendendo peixes.

Esse é talvez o melhor exemplo que já vimos para refutar uma comum oposição a ideia de dar dinheiro diretamente aos pobres, a famosa frase: “Não dê o peixe, ensine a pescar”. Pois bem: dê o dinheiro e eles irão comprar a vara de pescar, o barco e o motor!

Essas histórias foram tiradas do Facebook da Give Directly. Lá você encontrará muitas outras.

Como funciona?

A GiveDirectly consegue levar dinheiro diretamente para famílias vivendo em extrema pobreza fazendo a transferência de recursos via telefones celulares. Como vimos, esta transferência permite que as próprias famílias decidam como usar o dinheiro, seja para comprar comida, remédios, reformas da casa, pagar a escola dos filhos, ou mesmo iniciar um micro empreendimento.

Com a GiveDirectly você, do Brasil ou qualquer outro lugar, pode enviar dinheiro pros mais pobres do mundo, em países como Uganda e Quênia. A GiveDirectly, por sua vez, enviará o dinheiro para as pessoas beneficiárias via celular, usando o M-Pesa.

M-Pesa funciona de forma semelhante ao ao PayPal, PicPay e demais serviços que já conhecemos, não sendo necessário uma conta bancária ou sequer smartphone. Com o M-Pesa é possível sacar, depositar e enviar dinheiro usando apenas SMS.

Há todo um trabalho prévio realizado pela GiveDirectly em mapear, cadastrar e explicar a iniciativa para as pessoas que receberão as doações. Pesquisas regulares são então conduzidas para acompanhar como as pessoas estão gastando as transferências. Os beneficiados contam até mesmo com serviço de atendimento ao cliente de um call center exclusivo.

Mas funciona mesmo?

A GiveDirectly mantém um repositório de trabalhos em seu site. Conforme mencionam no site:

A avaliação rigorosa e experimental é rara entre as organizações sem fins lucrativos. A GiveDirectly colabora com uma ampla gama de pesquisadores independentes e renomados para medir os impactos das transferências de renda e responder as complexas perguntas do desenho destes programas por meio de mais de uma dúzia de ensaios clínicos aleatórios.

Relatamos os resultados de nossas avaliações e também anunciamos estudos em andamento antes da coleta dos dados, de modo que possamos ser responsabilizados pelos resultados. Também realizamos testes menores e não experimentais para saber mais sobre o que funciona melhor e como os diferentes tipos de destinatários gastam os fundos que recebem.

A intervenção típica da GiveDirectly consiste em fornecer três transferências generosas de dinheiro, com espaço de alguns poucos meses, e assim termina a ajuda. Contudo, eles também decidiram conduzir um grande projeto para testar o impacto de transferência continuada de renda (também conhecidos por aqui como programas de renda básica, renda mínima ou renda cidadã).

Abaixo, por exemplo, fizemos um gráfico com o resultado da pesquisa com 20 pessoas do vilarejo piloto do programa de renda básica, onde foi perguntando no que eles gastaram seus últimos 6 meses de transferências:

Ainda assim você pode ter dúvidas quanto a eficácia deste trabalho. Isso é ótimo. Devemos sempre prezar pela dúvida e buscar onde possamos estar errados. Neste artigo nós fizemos algumas rápidas observações quanto a um debate que contrapõe algumas das mais populares estratégias para tirar as pessoas da pobreza: transferência direta de dinheiro (como faz a GiveDirectly), microfinanças, geração de empregos e as chamadas “intervenções continuadas”, também conhecidas como “modelo de graduação”.

Sendo assim, não descartamos que determinados programas podem ser mais eficazes em tirar as pessoas da pobreza com menor custo, ou seja, que existam programas mais custo-eficazes que a transferência direta de renda. Também vale observar que diversos programas que atacam diretamente problemas de saúde, tal como a malária e parasitas, são comprovadamente mais eficazes em gerar maiores ganhos de qualidade de vida e também em vidas salvas.

Para uma análise bem mais detalhada sobre os estudos rigorosos que a GiveDirectly tem realizado a fim de medir seu impacto na economia local recomendamos ler depois esse artigo que traduzimos da Vox.

Local vs Global

Fica claro que apenas graças a revolução proporcionada pela internet e celulares projetos incríveis como esse são possíveis.

Algumas pessoas entendem que devemos doar localmente e devolver ao nosso país ou comunidade aquilo que alcançamos. Seguem ditados como “caridade começa em casa”, “pra mudar o mundo comece pelo seu bairro”, entre outros.

Mas tem o outro lado da moeda: as regiões mais necessitadas são justamente as que tem menos gente tentando “devolver” algo. Ademais, neste mundo conectado e globalizado, faz sentido ainda falar em agir localmente?

Peter Singer nos falar sobre a expansão de nosso circulo moral, abrangendo mais e mais pessoas, independente de seu local de nascimento, assim como outras espécies que não a humana. A tecnologia já proporcionou essa expansão. Não caberia à nossa moralidade acompanhar?

Saiba mais e ajude

Conheça mais sobre a GiveDirectly lendo todo extenso material que disponibilizam em seu próprio site ou então leia a análise feita pela GiveWell (obs.: ambos em inglês)

Caso deseje doar para a GiveDirectly pelo Brasil, a DoeBem facilita esse processo.

Caso prefira doar diretamente pelo site da GiveDirectly, não tem problema, o importante é doar. Clique aqui. (obs.: em inglês)

Dica: a GiveDirectly também aceita doações nas criptomoedas bitcoin e etherium

Autor: Fernando Moreno

Este post foi publicado originalmente aqui.