Os melhores argumentos para doar

A seguir apresentamos o resultado de um concurso para encontrar os argumentos mais convincentes para doação.

Obs.: adaptamos levemente alguns dos argumentos para melhor se adequarem ao nosso contexto.

Argumento 1

Pense nisto por um momento: alguém que você conhece e gosta está de repente para trocar de lugar com um dos 2 bilhões de seres humanos vivos neste momento que não tem acesso a água potável limpa e não contaminada. Ou talvez com uma das 800 milhões de pessoas que não terão o que comer em algum momento deste ano. O que você faria para ajudar a essa pessoa que você conhece?

Talvez você pararia tudo o que estava fazendo e não descansaria até tê-la ajudado. Agora considere por um momento que você será incapaz de ajudá-la. Você espera que outros a ajudariam?

E se alguém fosse capaz de ajudar, tendo que contribuir com apenas alguns reais, mas não o fizesse?

Se você acha que deixar de ajudar nessa situação seria um erro, então peço que reflita sobre seu próprio comportamento. Você permitiria que outra pessoa suportasse estas condições simplesmente porque você não se preocupa em arcar com o custo de ajudá-la? Suspeito que você responderia “Não” a esta pergunta e, no entanto, eu lhe digo que você está permitindo que isso aconteça.

Todos os dias você tem a oportunidade de poupar uma pequena quantia de dinheiro para proporcionar a um companheiro humano o mesmo acesso básico à comida ou à água potável — com que freqüência você já fez isso? Para a maioria das pessoas, nosso acesso privilegiado à água limpa e à comida não foi nossa escolha, tivemos apenas a sorte de nascer no país certo no momento certo.

Podemos optar por estender esse privilégio. Estou tentando convencê-lo de que está em nosso poder ajudar e que, se as posições fossem invertidas, se você (ou alguém que você conhece) precisasse de ajuda e outros optassem por não ajudar, você os consideraria imorais. Você é, neste momento, capaz de muito facilmente ajudar outro ser humano. Considere o que você esperaria de outras pessoas quando tomar esta decisão.

Autor: Jesse Blackburn

Argumento 2

Imagine um botão vermelho Se você apertá-lo, duas coisas vão acontecer:
Primeiro, você receberá 100 reais.
Segundo, um sério risco de contrair malária será infligido a oito crianças. Elas podem contrair a doença, podem sofrer terrivelmente e podem morrer devido a ela. Você apertaria o botão vermelho?

Parece que apertar este botão seria excessivamente egoísta e cruel. Ao apertá-lo, você colocaria seu próprio interesse em receber 100 reais acima do interesse de quatro crianças em evitar o risco de contrair malária.

Agora, imagine que alguém ponha aleatoriamente 100 reais à sua frente. Você poderia pegar e ficar com o dinheiro, mas também lhe é oferecida a oportunidade de apertar um botão verde por 100 reais em seu lugar. Se você apertar o botão, quatro crianças serão salvas do risco de contrair malária. Mosquiteiros serão distribuídos a elas, por um custo total de 100 reais. Dormir sob mosquiteiros é uma forma altamente eficaz de prevenir infecções em regiões onde a malária está disseminada. Duas crianças podem dormir sob um mosquiteiro, e quatro mosquiteiros serão distribuídos por 100 reais. Assim, ao invés de manter os 100 reais, você pode usá-los para salvar oito crianças do risco da malária, apertando o botão verde. Você o apertaria?

Não apertar o botão verde é muito semelhante ao apertar o botão vermelho. Se você apertar o botão vermelho, você recebe 100 reais, enquanto oito crianças estão expostas ao risco mortal da malária. Da mesma forma, se você não apertar o botão verde, você recebe 100 reais, enquanto oito crianças ficarão expostas ao risco mortal de pegar malária. Esta troca — colocar 100 reais acima dos interesses de oito crianças em evitar a malária — é o que precisamente faz parecer que apertar o botão vermelho é tão problemático. Portanto, se você não apertaria o botão vermelho, apertar o botão verde deve ser a escolha mais lógica. Ao apertar o botão verde, você renuncia a 100 reais, mas poupa oito crianças do risco mortal da malária. Isto deveria ser levado a sério, particularmente se você é o tipo de pessoa que nunca apertaria o botão vermelho.

Autor: Adriano Mannino

Argumento 3

Há poucas coisas com as quais praticamente todos concordam. O valor em ajudar ao próximo é uma dessas poucas coisas. Os filósofos são famosos por serem briguentos e concordarem em muito pouco. Mas em uma pesquisa com filósofos dedicados ao estudo da ética, 91% responderam que uma pessoa em situações normais deveria doar para a caridade. 96% destes filósofos afirmaram ter doado no ano passado.

Quase todas as tradições religiosas também estão de acordo. Para os cristãos, a caridade é uma das sete virtudes. Na bíblia, em João 3:17: se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como o amor de Deus permanece nele?

Para os muçulmanos, a caridade obrigatória (Zakat) é um dos cinco pilares do Islã. Há também a caridade voluntária (Sadaqah) que vai além da obrigação e é por isso também elogiada. Também no judaísmo existe o conceito de Tzedakah, que se traduz literalmente por “retidão”, mas que muitas vezes se refere à caridade. A doação não seria apenas um ato de benevolência, mas um dever que se tem que cumprir.

O público também concorda: de acordo com a Charities Aid Foundation, cerca de 88% das pessoas no Reino Unido fizeram pelo menos uma ação beneficente no ano passado. Nos EUA, 86% dos entrevistados acreditam que é importante doar tempo e dinheiro para as organizações.

A pobreza extrema é definida como tendo que viver com menos de 5 reais por dia. É frequentemente marcada pela falta de alimentos adequados, água potável e medicamentos básicos. Em 1980, mais de 40% da população mundial vivia nessa extrema pobreza. Hoje, apenas 10% estão nessa situação. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida global aumentou em mais de 10 anos.

Sendo esta pobreza tão extrema, também é muito barata de ser consertada: 50 reais a mais para nós seria muito bom, mas muitas vezes nem sequer pagaria a conta em um restaurante. Mas também poderia comprar 2 mosquiteiros de longa duração para prevenir a malária, ou desparasitar 15 crianças.

Em conclusão, dado que:
1-O ato de doar é visto como quase unanimemente algo bom de ser feito e
2-Pode fazer uma diferença maior para os mais pobres do mundo

Você sem dúvida deveria pensar em doar para o combate a pobreza extrema.

Autor: Julius Hege

Argumento 4

A vida de uma pessoa é o produto de suas escolhas.
Ao acabar de ler essa mensagem você terá uma escolha a fazer: doar para uma organização ou seguir rolando a barra de mensagens ? Os filósofos pensaram em várias razões pelas quais doar é a escolha certa a ser feita hoje, por isso vou lhes falar sobre elas. Mas, em última análise, a escolha é sua. Você deve se sentir bem com qualquer escolha que fizer, mas primeiro, leve algum tempo para pensar sobre por que doar pode ser a melhor opção.

Doar faz mais “bem” do que usar o dinheiro para si mesmo.
Alguns filósofos pensam que devemos procurar maximizar os bons resultados no mundo, mesmo que às vezes isso signifique que as pessoas individualmente não obtenham o que desejavam. Isto é chamado de utilitarismo. Um exemplo desta abordagem é que é uma boa idéia fazer um remédio que possa salvar 1 milhão de pessoas em vez de um que só poderia salvar 1 pessoa. Você tem a oportunidade de dar dinheiro a uma organização que ajuda um grande número de pessoas. Estes filósofos diriam que isto deveria ser priorizado ao invés de gastar, digamos, 50 reais, consigo próprio. Mesmo que possa ser doloroso não ter 50 reais em sua própria vida, se “desapegar” deste valor é a coisa certa a fazer “para o bem maior”.

O altruísmo é em si mesmo um “bem”.
Os filósofos também pensam que devemos fazer escolhas que em si mesmas são morais. Esta é a base de muitos códigos de ética religiosos e não-religiosos. Uma coisa que todas as religiões e códigos de ética concordam é que doar é uma coisa boa a fazer. Optar por doar hoje significaria que você está fazendo uma escolha que se alinha com o que diversos seres humanos, ao longo de séculos, acreditam ser uma coisa boa de se fazer.

Atos de altruísmo podem criar uma cultura que encoraja outras pessoas a fazerem coisas boas.
Tanto psicólogos como filósofos têm demonstrado que doar é contagioso. As pessoas que pensam que outras pessoas doam muito dinheiro também são mais propensas a doar. Isto cria uma cultura, um “efeito onda”, no qual uma doação leva a mais doações. Portanto, se você doar hoje e contar isso a outras pessoas, você está criando uma cultura que não só alcançará uma coisa boa com sua doação, com também aumentará as coisas boas que acontecem no mundo. Você pode fazer algo muito bom ao fazer uma doação hoje.

O altruísmo é bom.
Finalmente, filósofos e psicólogos têm demonstrado que doar é bom, o que significa que você pode sentir orgulho, alívio e alegria ao doar hoje. Os psicólogos sabem que estes sentimentos podem melhorar seu bem-estar e alguns filósofos diriam que estes sentimentos trazem sentido à sua vida e são metas importantes a se perseguir. Deste modo, se optar por doar hoje, fará o bem não apenas para outras pessoas, mas também fará bem para você.

Espero que estas ideias o façam pensar sobre as consequências poderosas e positivas da escolha de doar hoje. Obrigado por seu tempo.

Autor: Erik Nook

Argumento 5 — O vencedor

Muitas pessoas nos países pobres sofrem de uma condição chamada tracoma.
O tracoma é a principal causa de cegueira evitável no mundo.
O tracoma começa com bactérias que entram nos olhos das crianças, especialmente das crianças que vivem em lugares quentes, com muita poeira e pouca água, geralmente onde também a higiene é difícil de ser mantida.

Se não for tratada, uma criança com bactérias de tracoma começará a sofrer de coceiras constantes nos olhos, sua visão começará a ficar embaçada e gradualmente se tornará cega, embora este processo possa levar muitos anos.
Existe um tratamento muito barato que cura essa condição antes que a cegueira se desenvolva. Com apenas cerca de 100 reais, doados a uma organização altamente eficaz, você pode evitar que alguém fique cego mais tarde na vida.

Quanto você pagaria para evitar que seu próprio filho ficasse cego? A maioria de nós pagaria $25.000, $250.000, ou até mais, se pudéssemos pagar. O sofrimento das crianças nos países pobres deve importar ao menos mais de um milésimo do sofrimento de nosso próprio filho. É por isso que é bom apoiar uma das organizações altamente eficazes que estão combatendo a cegueira causada pelo tracoma e precisam de mais doações para alcançar mais pessoas.

Autores: Peter Singer e Matthew Lindauer

Tradução e Adaptação: Fernando Moreno

Um novo estudo descobriu que dar tratamento desparasitante às crianças ainda lhes traz benefícios 20 anos depois

Quando você quer beber água, basta abrir a torneira. Mas e se você não tivesse água encanada? E se não pudesse beber água sem o risco de adoecer? A doebem apoia as intervenções mais eficazes do mundo para melhorar o ser humano e por isso apoia o trabalho da SCI. A SCI leva medicamentos que combatem parasitas e sistemas simples de purificação da água para os locais que não possuem saneamento básico. Como se isso não fosse bom por si só, esse trabalho tem impacto no desenvolvimento intelectual e escolarização das crianças que são medicadas, o que por sua vez acaba gerando benefícios mesmo quando já estão adultos, no mercado de trabalho, podendo ser medidos mesmo 20 anos depois!

Abaixo reproduzimos reportagem do jornal Vox que explica em detalhes os estudos que embasam essas descobertas:

Um novo estudo descobriu que dar tratamento desparasitante às crianças ainda lhes traz benefícios 20 anos depois

Os resultados são certamente impressionantes. A maioria das intervenções globais no âmbito da pobreza, mesmo que funcionem, não produzem uma taxa de retorno anual de 37% que dura décadas. É muito raro fazer qualquer coisa nas políticas públicas que ainda tenha efeitos significativos 20 anos depois — muito menos efeitos tão grandes.

Em 1998 e 1999, profissionais de saúde pública no Quênia começaram a tratar crianças em escolas quenianas contra parasitas intestinais comuns, incluindo ancilóstomos, lombrigas, tricurídeos e esquistossomose. Os parasitas, predominantes em áreas pobres, estavam a afetar a nutrição e a saúde das crianças. A esperança era que os programas de tratamento em massa permitissem que uma geração de crianças crescesse sem os efeitos negativos das infestações de parasitas.

Para quem não lembra, essa é a esquistossomose, também conhecida como barriga d’água.

Nos anos que se seguiram, as campanhas de desparasitação tornaram-se a iniciativa favorita dos governos nacionais, bem como dos doadores que procuravam fazer donativos eficazes. Algumas investigações sugerem que este tipo de campanhas pode ser das intervenções de saúde pública mais importantes do mundo.

Mas dificilmente tem havido unanimidade sobre a questão da sua eficácia. Estudos como o artigo original de 2003 dos economistas do desenvolvimento Edward Miguel e Michael Kremer daquele grupo de estudantes no Quênia encontraram resultados surpreendentes de campanhas de desparasitação em massa. Os estudantes tornaram-se mais saudáveis, permaneciam na escola por mais anos e ganhavam mais dinheiro quando adultos.

Mas outros criticaram esse estudo, e outros estudos de desparasitação em massa não encontraram resultados tão elevados. Como é o caso de muitas outras intervenções de saúde pública, o caso da desparasitação em massa tem algumas provas reais que a sustentam, mas ainda há questões sem resposta e questões em que a investigação existente, para nossa frustração, é contraditória.

Este ano, Miguel e Kremer, juntamente com os coautores Joan Hamory, Michael Walker e Sarah Baird, voltaram à amostra original do Quênia na qual descobriram pela primeira vez os impactos das campanhas de desparasitação em massa que potencialmente mudam vidas. Acompanhando os participantes originais 20 anos mais tarde, pretendiam responder à pergunta: Os benefícios que descobriram inicialmente com o tratamento desparasitante na infância — que incluía mais tempo na escola e maior rendimento quando adultos — continuam válidos?

Num novo artigo publicado na série de artigos de trabalho do NBER [National Bureau of Economic Research] em 3 de Agosto, descobriram que sim. “Indivíduos que foram desparasitados quando crianças experienciaram aumentos substanciais no seu consumo quando adultos e rendimentos”, conclui o estudo.

Os efeitos sobre os rendimentos e os gastos são ligeiramente menores do que os observados num acompanhamento depois de 10 anos, mas mesmo assim são muito notáveis. Dois ou três anos a mais de tratamentos de desparasitação na escola traduzem-se em rendimentos por hora 13% mais altos, gastos de consumo 14% mais altos e probabilidades significativamente maiores de trabalhar fora da agricultura (em empregos que pagam melhor e que dão mais oportunidades de desenvolvimento). Os investigadores calculam que o investimento na desparasitação das crianças do Quênia teve até agora uma taxa de retorno anual de 37%.

“O que isto demonstra é que, mesmo a longo prazo, estes investimentos na saúde infantil têm um impacto duradouro nos padrões de vida das pessoas”, disse-me o autor Edward Miguel.

Os resultados são certamente impressionantes. A maioria das intervenções globais no âmbito da pobreza, mesmo que funcionem, não produzem uma taxa de retorno anual de 37% que dura décadas (o que talvez seja um motivo para ceticismo face às descobertas). É muito raro fazer qualquer coisa nas políticas públicas que ainda tenha efeitos significativos 20 anos depois — muito menos efeitos tão grandes.

Por outro lado, quando as intervenções têm efeitos a longo prazo, tendem a ser intervenções de saúde. Crianças mais saudáveis ​​crescem mais, ficam mais tempo na escola, aprendem mais enquanto estão na escola e têm menos probabilidade de adoecer em adultos. Se alguma coisa pode ter um impacto para toda a vida, será este tipo de intervenções na saúde.

Sabia que é possível ajudar uma ONG que faz esse trabalho via doebem? Clique aqui!

O debate sobre o que o estudo do Quênia nos ensina acerca de parasitas

Este estudo é a contribuição mais recente num longo debate em curso no mundo da saúde pública global sobre os efeitos das campanhas de desparasitação.

Em 2015, os epidemiologistas britânicos Alexander Aiken e Calum Davey publicaram uma reanálise dos dados das escolas originais do Quênia e defenderam que, quando os dados são devidamente analisados, “encontramos poucas provas de alguns efeitos indiretos relatados anteriormente numa intervenção de desparasitação. Os efeitos sobre infecções por parasitas, estado nutricional, desempenho em exames e frequência escolar em crianças das escolas que passaram pela intervenção permaneceram praticamente inalterados.”

Outros investigadores objetaram. Claro, o primeiro estudo sobre parasitas não foi perfeito — a sua escolha das escolas não foi suficientemente aleatória, não havia placebos (o que significa que os alunos poderiam ter-se comportado de maneira diferente porque sabiam que estavam no grupo de tratamento) e houve alguns erros reais no artigo. Mas o seu resultado principal foi muito robusto. Desde então, as crianças expostas à desparasitação tiveram resultados de vida mensuravelmente bem melhores. A reanálise teve por base técnicas estatísticas que não encontrariam resultados significativos neste conjunto de dados, mesmo que houvesse resultados significativos a serem encontrados.

Kremer e Miguel também defenderam as suas descobertas. A desparasitação “é uma política altamente custo-eficaz com provas de vários estudos sobre resultados educacionais e econômicos”, disse Kremer à minha colega Julia Belluz em 2015. “Há provas sobre o impacto educacional e econômico a longo prazo da desparasitação em vários outros estudos: por exemplo, os trabalhos de Kevin Croke no Uganda, os trabalhos de Owen Ozier no Quênia, e o nosso próprio acompanhamento a longo prazo no Quênia.” (Kremer acabou ganhando o Prêmio Nobel de Economia em 2019).

O novo artigo acrescenta-se a esse conjunto de provas. Mas os críticos provavelmente ainda não irão ficar completamente satisfeitos.

Por exemplo, podem perguntar: Se a desparasitação teve efeitos tão grandes e profundos no Quênia, por que é que efeitos semelhantes não foram encontrados noutros lugares?

“Houve algumas revisões que encontraram um efeito modesto ou nenhum efeito”, concordou Miguel. Mas defendeu que eram principalmente de locais com menor incidência de parasitas, o que tornaria os efeitos muito mais difíceis de detectar.

“Se olharmos apenas para os cenários onde os estudos a curto prazo anteriores foram feitos, e olharmos apenas para os estudos com pelo menos uma incidência de 20%, a curto prazo há ganhos em nutrição”, disse-me. “Mas ninguém recorreu a dados experimentais de uma grande amostra e observou o que aconteceria ao longo do tempo”. E são os efeitos a longo prazo dos programas de desparasitação que são mais notáveis ​​e mais importantes.

Isto levanta outra questão: Como é que o tratamento de parasitas intestinais aumenta o rendimento duas décadas mais tarde? Especialmente quando os impactos médicos a curto prazo são mínimos? “Quanto mais segurança temos que os impactos a curto prazo são pequenos, mais difícil é acreditar que os impactos a longo prazo sejam grandes”, David Roodman, escreveu para a GiveWell, resumindo esta preocupação em 2016.

Alguns dos efeitos da desparasitação ocorrem porque os alunos permanecem mais tempo na escola, mas outras investigações sobre a permanência dos alunos na escola não encontraram efeitos dessa magnitude no rendimento 20 anos mais tarde. Portanto, se a desparasitação está realmente a criar benefícios tão grandes, provavelmente não poderão ser apenas uma consequência de manter os alunos na escola. O que pode ser responsável pelos restantes benefícios?

Uma possibilidade, disse-me Miguel, era os efeitos numa comunidade devido a todos os seus alunos terem permanecido na escola por mais tempo. Os alunos cuja escola fez programas de desparasitação provavelmente irão trabalhar num emprego sobre o qual ouviram um amigo da escola falar, por exemplo. Mas isto também não chega para explicar a dimensão total do efeito. E os alunos que receberam tratamento desparasitante têm agora mais probabilidade de deixar as comunidades rurais em que cresceram para viver numa grande cidade — talvez ser mais saudável faça com que os grandes riscos de se mudar para uma cidade pareçam valer mais a pena.

Seria realmente vantajoso perceber como a desparasitação tem os efeitos que tem no rendimento, mas talvez não sejamos capazes de determinar isso apenas com base em dados de estudos como este. “A análise não resolve a questão de porquê exatamente e por que meios a desparasitação afetou os resultados dos adultos”, reconhece o artigo. É difícil separar cada um dos diferentes caminhos possíveis pelos quais a desparasitação pode afetar as pessoas porque muitos deles estão relacionados — aumentos iniciais no rendimento podem levar a aumentos mais duradouros no rendimento, por exemplo, bem como pode levar as pessoas a serem mais propensas a migrarem, bem como pode levá-las a procurar outros cuidados médicos quando for necessário e levá-las a serem mais saudáveis.

Para além disso, há a questão de quão bem os resultados se generalizam. A maior parte do mundo não tem uma incidência de parasitas tão alta como a do Quênia no final dos anos 1990. Portanto, a desparasitação em massa irá revelar efeitos menores noutras comunidades — e de facto, isso é o que os estudos descobriram. E, mesmo deixando de lado preocupações específicas como essas, os investigadores muitas vezes descobrem que as intervenções funcionam menos bem quando ampliadas e aplicadas noutras regiões, mesmo quando não há um motivo claro para isto.

Ainda restam dúvidas sobre a desparasitação — mas continua a ser uma boa aposta para a saúde pública

Mas, mesmo com algumas perguntas ainda sem resposta, as provas que de facto temos sugerem que os benefícios potenciais a longo prazo são suficientemente grandes para tornar os programas de desparasitação em massa uma das melhores apostas que conhecemos para melhorar o desenvolvimento das crianças nos países pobres.

Estas encontram-se sistematicamente entre as principais instituições de caridade recomendadas pela GiveWell enquanto intervenções custo-eficazes. (A GiveWell considera provável que a desparasitação faça muito menos bem no caso típico do que os resultados medidos do Quênia, mas ainda a considera uma das melhores intervenções de saúde global). Provavelmente, nenhum estudo irá esclarecer todas as nossas dúvidas, mas os estudos podem ser reunidos para formular a melhor estimativa. A minha melhor estimativa é que, pelo menos nas áreas com alta incidência de parasitas, os programas de desparasitação nas escolas são uma ideia muito boa.

E os legisladores têm levado isso muito a sério nas últimas duas décadas, implementando programas de desparasitação em grande escala que trataram muitos dos alunos mais vulneráveis. “Alcançamos mais de 78% de todas as crianças vulneráveis ​​[no Quênia] a um custo médio de 45 cêntimos por criança por ano”, disse o porta-voz da Evidence Action, Gabriel Plata, que dirige o programa de desparasitação Deworm the World. Mas o problema está longe de ser resolvido. “Há uma estimativa de prevalência de 800 milhões de pessoas que ainda estão em risco”, disse Plata.

E as coisas estão a piorar. As escolas estão a ser encerradas em grande parte do mundo devido ao coronavírus, e isso significa que as intervenções de saúde pública que normalmente acontecem nas escolas não estão a acontecer de todo. O novo estudo do Quênia é apenas o nosso último lembrete de que isso se trata de uma perda enorme e de que as crianças afetadas ainda podem sofrer dessa desvantagem daqui a 20 anos.

“O nosso estudo sugere que temos de encontrar uma forma de fazer chegar esses serviços às crianças” disse-me Miguel, “ou então os custos a longo prazo podem ser muito elevados”.

Uma lição importante: Não precisamos de ter resolvido todas as questões sobre a desparasitação para procurar programas de desparasitação custo-eficazes com base nas provas que temos. Ainda há mais coisas para se aprender sobre a desparasitação. Elaborar uma política global de saúde pública é confuso, difícil, frustrante e sempre muito mais fácil em retrospectiva. Mas também é muito importante. Tudo o que podemos fazer é continuar a tentar, continuar a aprender, permanecer curiosos e seguir em frente com o nossa melhor estimativa atual.

Tradução reproduzida do site do Altruísmo Eficaz e publicado originalmente pela Vox

É hora de fazer a diferença

Por acaso você já quis devolver um pouco para a sociedade do que recebeu? Contudo, nunca se sentiu suficientemente confiante do que fazer, tendo pouco se engajado e sempre deixado isso para amanhã ? Esse texto foi escrito para você.

Esse texto foi escrito para você que se identifica com essas duas situações:

  1. Você quer fazer do mundo um lugar melhor e genuinamente ajudar ao próximo.
  2. Até hoje você fez nada ou pouco nesse sentido, tendo protelado se engajar o tanto quanto desejava.

Vamos agora supor algo inusitado: esse texto — apenas esse texto, que mal começou — era o que bastava e que conseguimos te convencer a sair da inação.

- Ok, é hora de fazer a diferença! Vou sair da inação e começar a ajudar!

- Humm… Ok, e agora, o que eu faço?

Alguns irão lhe recomendar doar ou ser voluntário para a ONG de um amigo ou conhecido que sabem que fazem um trabalho sério. E isso pode ser ótimo.

Alguns irão recomendar que ajude uma causa que tenha a sua cara, um tema que você tenha uma particular “paixão” ou “incômodo”. E talvez você já tenha essa causa favorita em mente — o que é ótimo então, dedique-se a atacar esse problema!

Mas talvez você não tenha nenhum problema especial em mente. Quer dizer… a gente sabe que há muitos problemas, uma infinidade deles, basta começar a pensar que a lista já fica longa. Mas qual merece sua atenção?

A proposta que iremos lhe apresentar pode parecer um pouco esquisita no começo: e se, ao invés de você partir de uma causa, partisse de uma série de perguntas?

O que o mundo precisa de mais urgente, hoje?

Como posso ajudar o mundo o máximo possível?

Qual a melhor maneira de ajudar ao próximo e reduzir o sofrimento alheio?

E se nossa paixão ou causa for ajudar aos outros o máximo possível, independente de como?

Essa proposta foi abraçada por pessoas como nós da doebem. Não estamos dizendo que esse é o único modo ou o modo mais correto de encararmos a questão de como ajudar. Cada um pode chegar a uma conclusão própria.

Mas, se você gostou dessa abordagem, que tal fazer dessas perguntas o guia para a resposta ao “Ok, e agora, o que eu faço?”

Sim, você pode dar início às suas próprias pesquisas para responder a essas perguntas. É o que mais recomendamos que você faça, aliás! Precisamos de mais pessoas tentando entender o que o mundo precisa de mais urgente. Precisamos de mais pessoas pensando qual a melhor maneira de ajudar ao próximo e reduzir o sofrimento alheio.

Mas também queremos chamar sua atenção para o fato de que algumas pessoas já começaram essa mesma busca. E talvez você julgue interessante entrar em contato com o que essas pessoas já fizeram, para não ter que começar nada do zero.

Como um dia disse Newton: “se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.”

A proposta que lhe apresentamos agora já está tomando corpo há algum tempo. Não muito, apenas pouco mais de uma década. Pessoas que se conheceram online ou em universidades e que então passaram a dar forma a um conceito, que então virou um movimento e então uma comunidade: trata-se do Altruísmo Eficaz.

Esse é o convite que estamos lhe fazendo hoje. Convidamos você a saber um pouco mais sobre o Altruísmo Eficaz, clicando aqui.

Também convidamos você a conhecer um pouco mais sobre o trabalho feito pela doebem. Explore nosso site ou, se preferir, assista a esse vídeo.

E agora, o que você irá fazer?

8 ideias para celebrar seu aniversário enquanto a vacina não sai

Não, não é pra sair chamando os amigos pra festa e desrespeitar o isolamento social! Mesmo em casa você ainda pode comemorar seu aniversário e se divertir.

Festas de aniversário são especiais. Eles não apenas marcam a passagem de outra viagem fabulosa ao redor do sol, mas também são uma das melhores maneiras de reunir seus amigos e familiares para aproveitarem juntos sobremesas festivas, uns bons drinks e até uma decoração extravagante. Obviamente, este ano é diferente. Já que o nosso novo normal é o distanciamento social, as reuniões de pequeno e grande porte foram canceladas, deixando muitos aniversários para serem comemorados em casa.

Embora você não consiga dar a festa que planejou, não há motivo para pular a comemoração por completo. Se você ou alguém que você ama tiver um aniversário chegando, planeje uma dessas ideias alternativas de festa. Desde fazer um vídeo comemorativo para o aniversariante, até organizar uma festa por videoconferência, ou mesmo fazer da sua festa um evento filantrópico. Há muitas maneiras do aniversariante ter um dia especial. E quando essa pandemia terminar — e terminará — você terá todas as desculpas para dar a maior festa de aniversário de todos os tempos.

1. Mande um cartão

A maneira mais fácil de mostrar seu amor é com um cartão. Envie um cartão eletrônico: há inúmeros sites online para escolher qual tipo de cartão você enviará. Pode ser simples, mas as palavras corretas podem ser certeiras no coração do aniversariante.

2. Faça um vídeo para o aniversariante

Um modo de aprimorar um cartão de aniversário tradicional é torná-lo interativo. Use um serviço como o Tribute para criar uma montagem de vídeo personalizada. Peça aos amigos e familiares para gravar o vídeo de aniversário e o Tribute os reunirá e enviará ao convidado de honra. O presente certamente será lembrado por anos.

3. Organize uma festa de aniversário virtual no Zoom

Marque uma reunião no Zoom ou o aplicativo de videoconferência que preferir e convide todos os seus amigos para um happy hour virtual. A qualidade do vídeo no Zoom é muito boa e você pode ver o rosto de cada participante em uma visualização em grade simples. Deseja tornar as coisas realmente especiais? Marque com o aniversariante um horário um pouco mais tarde para entrar na sala, para que todos os outros possam cantar “Parabéns pra Você” assim que ele chegar.

4. Organize uma festa na Netflix

Se você gosta de filmes, agende uma festa virtual. Faça o download da extensão Netflix Party no Chrome e você e seus amigos poderão assistir ao mesmo filme do Netflix ao mesmo tempo. A extensão possui reprodução de vídeo sincronizada (para que a tela de todos pare e continue ao mesmo tempo); além disso, há uma sala de bate-papo para que você possa compartilhar suas impressões sobre o filme.

5. Envie um bolo ou outra sobremesa festiva

Uma ótima maneira de apoiar as empresas locais nesses tempos difíceis é solicitar serviços para entrega. Escolha uma doceria ou padaria local e envie para o aniversariante algo doce bem elaborado, como bolos, mousses, tortas, etc.

Se você é o aniversariante, que tal mandar cupcakes para a casa dos convidados de sua festa virtual?

6. Presenteie seu amigo com uma música ou outra criação artística

Uma boa opção se você tiver uma “veia artística” é dar um presente único ao aniversariante, totalmente criativo, que ela/ele nunca vai esquecer. Se você é mais inclinado para a música, escreva uma canção para seu amigo e apresente-a por bate-papo online. Mesmo que sua música não seja incrível, é a intenção (e a criatividade) que conta. Se todo mundo em seu grupo de amigos topar, peça a eles que acessem o bate-papo com algo que criaram para o aniversariante. Pode ser uma música, um poema, um discurso, uma dança ou uma obra de arte.

7. Se arrume para uma festa temática

Só porque você está comemorando seu aniversário em casa não significa que você precisa fazer isso de pijamas. Defina um tema para a sua festa virtual e peça a todos que se vistam de acordo. Os possíveis temas podem ser referência a uma época como os anos 20, 60, 80; um estilo de música como Hip Hop, Glam Metal ou Punk Rock — as opções são infinitas!

8. Faça esse dia ainda mais especial criando uma campanha de doações para quem mais precisa

Não é porque estamos experimentando isolamento social que não podemos seguir impactando o mundo a nossa volta de maneira positiva. Que tal fazer seu aniversário ser memorável criando um evento que impacte positivamente a vida de várias pessoas?

Com a doesuafesta você ganha um motivo extra para comemorar seu aniversário, mobilizando seus amigos para angariar doações. Simplesmente peça a eles que o presente que lhe dariam ou outros gastos que normalmente teriam organizando sua festa ou pagando a mesa do bar sejam usados para realizar uma doação.

Há um sentido maior aqui: fazer de sua festa um motivo para ajudar as pessoas neste momento crítico lhe ajudará a guardar essa data na memória não como um momento de privações ou frustração, mas de alegria por ter mobilizado pessoas para fazerem o bem.

É bem fácil e rápido criar uma festa no doesuafesta !

Adaptado deste site por Caio Freire e Fernando Moreno.

Este artigo foi originalmente publicado como "8 ideias para celebrar seu aniversário durante a pandemia" no blog da doebem no medium.

Na África, estamos transferindo dinheiro via celular para famílias afetadas pelo coronavírus.

Nesta crise, a GiveDirectly está ajudando com muita rapidez e segurança. A tecnologia via celular permite que o dinheiro seja rapidamente transferido e também diminui muito do contato pessoal. Colocar dinheiro diretamente na mão dos mais pobres novamente se prova uma intervenção altamente eficaz no combate à pobreza.

Traduzido do Site da GiveDirectly:

Estamos respondendo a essa crise fazendo o que fizemos por uma década: doando dinheiro.

Como os governos tem imposto o distanciamento social para limitar a disseminação do COVID-19, muitas famílias de repente se viram sem mais conseguir ganhar o pão diário. Poucos tem dinheiro poupado para enfrentar esta tempestade, menos ainda para prestar cuidados se um membro da família adoecer. Para piorar a situação, muitos dos programas de ajuda tradicionais, que dependem da interação cara-a-cara, estão com atividades limitadas diante do risco de transmissão do coronavírus.

Este é o momento do dinheiro digital.

Para proteger a segurança dos destinatários e da equipe, todos os processos de inscrição e pagamento serão conduzidos remotamente de ponta a ponta.

Temos como alvo trabalhadores do setor informal de baixa renda em áreas urbanas.

Vamos nos concentrar primeiro nas áreas urbanas, onde acreditamos que os impactos econômicos do COVID-19 se farão sentir primeiro e com maior força. Coordenaremos com governos locais e ONGs para identificar e priorizar grupos carentes. Para começar, estamos inscrevendo destinatários das favelas de Nairóbi — principalmente jovens — em parceria com o SHOFCO.

Estamos usando um modelo de renda básica como uma solução de assistência de curto prazo.

Cada família receberá de 25 a 50 dólares por mês (dependendo da localização), inicialmente por 3 meses. Esperamos que a principal limitação de quantas pessoas poderemos ajudar dependerá do quanto conseguiremos arrecadar em doações.

Doe agora. Diretamente pelo site da GiveDirectly ou via doebem, como preferir.

Melinda Gates: vendo os vieses de gênero

O Natal na vila Dimi, uma comunidade agrícola remota no Malauí, todos se reuniram para comemorar, exceto uma mulher, Patrícia, que estava em um campo a uma milha de distância, ajoelhada na terra úmida em seu terreno de meio hectare, plantando amendoim.

Enquanto o resto de sua vila compartilhava a comida e fazia festa, Patrícia trabalhava com rigoroso cuidado, certificando-se de que suas sementes se alinhassem em fileiras perfeitas — 75 centímetros entre cada linha, 10 centímetros entre cada planta.

Seis meses depois, visitei Patrícia no terreno de sua fazenda e lhe disse: “Me contaram como você passou o dia de Natal!” Ela riu e disse: “Foi quando as chuvas chegaram!” Ela sabia que sua colheita seria melhor se plantasse quando o chão ainda estava úmido, e foi o que ela fez. Você pensaria que alguém com a dedicação de Patrícia seria extremamente bem-sucedida, mas ela passava dificuldades há anos. Apesar de seu trabalho meticuloso, até o básico estava fora do alcance para ela e sua família. Ela não tinha dinheiro para as taxas de matrícula de seus filhos, o tipo de investimento que pode ajudar a quebrar o ciclo da pobreza, ou mesmo dinheiro para comprar um conjunto de panelas, o que poderia facilitar sua vida.

Os agricultores precisam de cinco coisas para ter sucesso: boas terras, boas sementes, material agrícola, tempo e know-how. Havia barreiras entre Patrícia e todas essas coisas, simplesmente porque ela era uma mulher.

Por um lado, e isso é comum na África subsaariana, a tradição do Malawi na maioria das comunidades determina que as mulheres não podem herdar terras (As leis recentemente aprovadas no Malawi concedem às mulheres direitos iguais de propriedade, mas os costumes são mais lentos em mudar). Portanto, Patrícia não possuía sua própria terra. Ela a alugá-la de outro. Era uma despesa que a impedia de investir na terra para torná-la mais produtiva.

Além disso, como Patrícia é uma mulher, ela não tem voz nos gastos da família. Durante anos, o marido decidiu o que a família deveria gastar — e se isso não incluísse suprimentos agrícolas para Patrícia, não havia nada que ela pudesse fazer.

O marido também decidia como Patrícia passava o tempo. Ela fez uma imitação engraçada dele lhe dando ordens: “Vá e faça isso, vá e faça isso, vá e faça isso, vá e faça isso o tempo todo!” Patrícia passava os dias cortando lenha, buscando água, cozinhando refeições, limpando os pratos e cuidando das crianças. Isso lhe dá menos tempo para gastar em suas colheitas ou para levar seus produtos ao mercado para lhe garantir o melhor preço. E se ela quisesse contratar ajuda, os trabalhadores não trabalhariam tanto por ela como por um homem. Homens no Malauí não gostam de receber ordens de mulheres.

Surpreendentemente, até as sementes que Patrícia estava plantando foram afetadas por seu sexo. As organizações de desenvolvimento trabalham há muito tempo com os agricultores para produzir sementes que produzem mais ou atraem menos pragas. Por décadas, porém, quando esses grupos iam consultar os líderes da comunidade agrícola, eles conversavam apenas com homens, e os homens se concentravam em cultivar apenas as colheitas que eram capazes de vender. Quase ninguém estava criando sementes para agricultoras como Patrícia, que também se concentram em alimentar suas famílias e por isso costumam cultivar plantas mais nutritivas, como grão de bico e vegetais.

Governos e organizações de desenvolvimento oferecem sessões frequentes de treinamento para agricultores. Mas as mulheres têm menos liberdade para sair de casa para participar dessas sessões ou até para conversar com os instrutores, que tendem a ser homens. Quando as organizações tentaram usar a tecnologia para espalhar informações — enviando dicas por mensagem de texto ou pelo rádio — descobriram que os homens controlavam essa tecnologia. Se as famílias tinham um telefone celular, os homens o carregavam. Quando as famílias ouviam o rádio, os homens estavam controlando qual rádio era sintonizada.

Quando você soma tudo, começa a entender como uma agricultora inteligente e trabalhadora como Patrícia nunca foi capaz de progredir. Havia uma barreira atrás da outra bloqueando seu caminho, porque ela era uma mulher.

Texto de Melinda Gates, retirado e do livro recém lançado “The Moment of Lift”.

Tradução: Fernando Moreno.

Oncocercose - A Cegueira dos Rios

Uma doença por muito tempo negligenciada mas que agora encontra-se em fase avançada de eliminação

Um dos principais objetivos da doebem é buscar intervenções eficazes e organizações sérias no Brasil para promover uma cultura de doação efetiva. Uma das etapas da nossa metodologia consiste na pesquisa sobre a relevância de determinado problema no Brasil.

Neste post, decidimos falar sobre a Oncorcecose. A doença está na lista de programas prioritários construída pela GiveWell, que aponta intervenções que possam trazer resultados custo-efetivos na solução do problema. Mais especificamente, a GiveWell analisa a “distribuição em massa de medicamento para controle da Oncocercose”, solução que será detalhada abaixo.

O que é a Oncorcecose?

A Oncocercose, também conhecida por “cegueira dos rios”, “mal do garimpeiro” ou “doença de Robles”, é uma doença infecto-parasitária e a segunda causa mais comum de cegueira devido a uma infecção, depois do Tracoma. Atualmente, avalia-se que a doença afete 17 milhões de pessoas de 34 países em 3 continentes (99% dos casos na África) e estima-se que a cegueira completa ainda atingirá meio milhão de pessoas até sua eliminação.

A doença é causada pela infecção por filárias Onchocerca volvulus, vermes que são transmitidos por picadas da mosca preta do gênero Simulium, comumente chamada de piúm ou borrachudo. Embora a Oncocercose não cause a morte, seus sintomas podem gerar problemas severos. De acordo com Moraes (1991), “tais alterações são, às vezes, tão severas que justificam a expressão usada para descrever o aspecto dos pacientes: “os jovens parecem velhos, e os velhos, lagartos”” (p.504). A OMS (2017) apontou que tanto os problemas nos olhos como os de pele associados à doença resultaram em queda de produtividade, impactando, portanto, na economia das regiões afetadas. Dentre outros, os sintomas da Oncocercose incluem coceira intensa, pele ressecada, inchaço dos gânglios, febre e surgimento de nódulos.

A mosca Simulium é um inseto hematófago, ou seja, que se alimenta de sangue. Na busca por alimento, transmite causadores de outras doenças além da Oncocercose, como a Leishmaniose e a Mansonelose. Uma vez que as larvas dessa mosca requerem grande quantidade de oxigênio para seu desenvolvimento, ela geralmente deposita seus ovos em rios, principalmente em partes com cachoeiras, onde a aeração na água é maior (MORAES, 1991). Assim, as áreas mais afetadas pela doença são geralmente montanhosas e/ou com rios.

Como prevenir e tratar a doença?

Uma vez que não há vacina para a doença, a prevenção se dá por: 1) uso de roupas que cobrem boa parte da pele, de repelentes e de redes em torno das camas e 2) combate ao vetor (mosca). O combate ao vetor é feito pelo uso de inseticidas organofosforados e, em regiões nas quais as larvas apresentam resistência, pelo uso de larvicidas a base de Bacillus thuringiensis subespécie israelensis — Bti (HERZOG, 1999).

Embora as estratégias de prevenção apresentem relativo sucesso, o tratamento acaba gerando o maior impacto para a eliminação da Oncocercose no mundo. O tratamento para essa doença pode ser realizado através de nodulectomia (cirurgia para a retirada dos nódulos) e quimioterapia. Segundo Herzog (1999), a quimioterapia pode ser realizada pelo uso de um desses três medicamentos: SuraminaDietilcarbamazina e Ivermectina. Uma vez que provocava efeitos colaterais menos severos que os outros e era mais fácil de ser administrada, a Ivermectina passou a ser usada em massa no combate à Oncocercose.

O tratamento com Ivermectina é prolongado (mínimo de 8 anos) e consiste em administrações anuais ou bianuais (algumas vezes, semestrais ou até trimestrais) de doses da droga. Esse fármaco mata as microfilárias (verme jovem), mas não afeta os vermes adultos. Uma vez que as filárias (vermes adultos) podem viver por 8 a 15 anos no corpo do hospedeiro e, nesse período, continuam sua reprodução, faz-se necessário o uso contínuo e prolongado deste medicamento.

Além dos três medicamentos citados acima, um novo tratamento vem sendo desenvolvido: a administração de Doxiciclina. A Doxiciclina é um antibiótico que tem como alvo as bactérias Wolbachia, presentes na parte exterior dos vermes. Tais bactérias apresentam relação de simbiose mutualística obrigatória com os vermes e, nesse tipo de relação, um ser precisa do outro para sobreviver. Nesse sentido, a morte da bactéria pode causar morte do verme e vice-versa. Assim, uma estratégia de combate à Oncocercose é através da morte das bactérias, que embora não sejam as causadoras da doença, são fundamentais para a sobrevivência do verme adulto. Atualmente, estudos vêm buscando compreender melhor a relação entre as bactérias e as filárias e a possível interação entre os medicamentos Ivermectina e Doxiciclina para intensificar o combate à doença (ALBUQUERQUE, 2011); (ABEGUNDE, et al., 2016).

Qual é a situação da Oncocercose no Brasil?

O primeiro caso de Oncocercose humana apareceu na literatura em 1985. Ao longo do século XX, outras descobertas foram realizadas sobre a doença como sua causa, características do parasita e do vetor, formas de diagnóstico, sintomas e formas de tratamento e prevenção. Com esse avanço, novas informações sobre a situação da doença no mundo foram obtidas e, em 2013, a OMS (2017) estimou que 25 milhões de pessoas estavam infectadas, dentre as quais 300.000 estavam cegas e 800.000 sofriam de problemas de visão em decorrência da doença.

Distribuição da doença no mundo, 2013. Imagem da World Health Organization.

Apesar desses dados alarmantes, a Oncocercose era e continua sendo considerada uma “Doença Negligenciada”, assim como a Malária e a Doença de Chagas. De acordo com Valverde (2013), essas doenças são “causadas por agentes infecciosos ou parasitas e são consideradas endêmicas em populações de baixa renda” e ainda recebem pouco investimento para pesquisas, produção de medicamentos e controle.

Até a década de 1980, apesar de suas limitações, o combate ao vetor (mosca) permaneceu a principal estratégia de combate à Oncocercose. Embora a Suramina e a Dietilcarbamazina já tivessem sido desenvolvidas nesse período, seus efeitos colaterais severos e os entraves à sua aplicação mantinham a distribuição de medicamentos como estratégia secundária.

"Essas doenças são “causadas por agentes infecciosos ou parasitas e são consideradas endêmicas em populações de baixa renda” e ainda recebem pouco investimento para pesquisas, produção de medicamentos e controle."

A década de 1980 foi marcada por um avanço revolucionário no combate à Oncocercose: a descoberta da Ivermectina como medicamento capaz de matar os vermes jovens (microfilaricida). Após a realização de testes com humanos infectados, verificou-se que esse medicamento tinha alta tolerância e que um único tratamento prevenia a infecção por 4 a 6 meses. Essas descobertas acerca da Ivermectina representaram uma quebra de paradigma nas estratégias de combate à doença e, por matar os vermes ainda jovens , esse medicamento reduz o risco de surgirem sintomas severos (causados por esses vermes) e reduziam o potencial de propagação da doença (CUPP, et al., 2011).

A Ivermectina passou a ser distribuída em focos na África numa estratégia de medicação anual e, verificado o sucesso inicial, em 1986, testes com distribuição semestral passaram a ser realizados na América. Comprovado o sucesso do medicamento nos testes, a Companhia Merck reconheceu a importância da Ivermectina na terapia contra a Oncocercose e, em 1987, ela anunciou seus planos de doar Mectizan® (Ivermectina) pelo tempo que for necessário. Segundo Cupp, Sauerbrey e Richards (2011), esse gesto não teve precedentes na história da medicina tropical e ofereceu a possibilidade de controle da doença.

Diante desse cenário, a Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO) fundou, em 1991, o Programa de Eliminação da Oncocercose para as Américas (OEPA), que passou a atuar como coordenador e centro técnico de uma coalizão internacional (GUSTAVSEN, et al., 2011); (CUPP, et al., 2011). O projeto inicial do OEPA era a eliminação da doença da região em 2007 e, apesar dessa meta não ter sido atingida, diversos avanços significativos foram feitos. Após o tratamento com Ivermectina e o combate ao vetor com inseticidas, a doença foi eliminada na Colômbia (2013), no Equador (2014), no México (2015) e na Guatemala (2016). Dos três focos da doença na Venezuela, a doença foi eliminada em 2 deles. O foco em que a Oncocercose ainda não foi eliminada na Venezuela é contíguo ao brasileiro e a eliminação de um requer a eliminação do outro (SAUERBREY, et al., 2018).

Os dois últimos focos localizam-se na área indígena Yanomami, território extremamente isolado e de difícil acesso, aspectos que dificultam a entrega dos medicamentos. Além disso, os Yanomamis têm hábito seminômade, o que oferece barreiras à manutenção de um tratamento regular (GUSTAVSEN, et al., 2011). Dados apontam que, atualmente, há 30.561 pessoas em áreas de risco, sendo 15.086 na Venezuela e 15.475 no Brasil. Embora haja essa divisão estatística, os focos são fisicamente um só e sua eliminação requer esforços conjuntos dos dois países.

Nesse sentido, os governos brasileiro e venezuelano aproveitaram a ocasião da 67ª sessão da Assembleia Mundial da Saúde, realizada em Genebra, na Suíça, em 2014, e firmaram um acordo se comprometendo a fortalecer e integrar ações para eliminação da doença na fronteira entre os países (ROCHA, 2015). A partir desse comprometimento e do fortalecimento no combate à doença, a PAHO renovou seu prazo para a eliminação da doença para 2022. De acordo com dados do Ministério da Saúde (2012), entre 2000 e 2016 não foram detectados novos casos da doença no Brasil, fazendo crescer as esperanças de sua eliminação no país nos próximos anos.

Vale a pena investir no combate a doença?

Conforme apresentado acima, a Oncocercose no Brasil encontra-se em fase de eliminação, ou seja, embora ele seja um problema relevante, ele está praticamente solucionado. Nesse sentido, nós da doebem optamos por não prosseguir com essa análise, entendendo que nossa recomendação não geraria impacto sobre a situação atual do combate à doença no Brasil.

Uma vez que a Oncocercose ainda afeta milhões de pessoas, principalmente na África, caso você tenha interesse em doar para organizações que a combatem, sugerimos que você visite o site da The Carter Center, organização responsável pelo gerenciamento dos recursos para essa causa, ou doe para os programas de desparasitação que também acabam por indiretamente combater a doença.

Este post foi escrito por Dominic Doula Ribeiro e revisado por Guilherme SamoraElisa Mansur e Fernando Moreno.

10 livros para quem quer fazer a diferença

Quantos você já leu?

O poeta Mário Quintana já dizia “livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” E quem é capaz de dizer que um livro nunca o(a) mudou? Assim, uma das melhores maneiras de obter inspiração e ideias para mudar o mundo é ler livros que o instiguem, que o provoquem, que o façam refletir e querer mudar a si mesmo e o mundo ao seu redor.

Abaixo trazemos uma seleção de peças que te ajudarão a entender melhor o seu papel e como você pode fazer a diferença hoje. Alguns trazem histórias inspiradoras, outros maneiras práticas de ajudar, ou até provocações éticas e filosóficas. Entretanto, todos possuem algo em comum: após ler qualquer um destes livros, a sua visão de mundo não será mais a mesma.

Para melhorar o mundo, precisaremos de muita gente, muitas ideias e muita execução. Não acreditamos que exista apenas um conceito ou ideia, uma “silver bullet” (bala de prata), que irá resolver todos os nossos problemas. Assim, buscamos trazer uma seleção com diferentes conceitos.

Veja a seguir!

  1. Doing Good Better: How Effective Altruism Can Help You Help Others, Do Work that Matters, and Make Smarter Choices about Giving Back William MacAskill (veja mais detalhes aqui). William MacAskill, professor de filosofia de Oxford e um dos principais teóricos por trás do movimento Altruísmo Eficaz, aprofunda os conceitos do Altruísmo Eficaz e apresenta maneiras de aplicá-los na sua vida.
  2. The Life You Can Save: How to Do Your Part to End World Poverty — Peter Singer (veja mais detalhes aqui). O filósofo Peter Singer aborda questões filosóficas sobre o ato de doar, as ações para a criação de uma cultura de doação mais efetiva. O livro traz sugestões de de como você pode fazer a diferença hoje.
  3. The Most Good You Can Do: How Effective Altruism Is Changing Ideas About Living Ethically — Peter Singer (veja mais detalhes aqui). Trazendo mais valores sobre viver de forma ética, Peter Singer, elabora ainda mais sobre o Altruísmo Eficaz, a sua influência e impacto que o movimento tem tido na mudança da percepção mundial.
  4. 80,000 Hours: Find a fulfilling career that does good— Benjamin J Todd (veja mais detalhes aqui). 80.000 horas: essa é a quantidade de horas estimadas que você trabalha ao longo da sua carreira. Esse livro com certeza mostrará como você é capaz de ter a carreira que deseja e ainda assim fazer o bem.
  5. How to Change the World: Social Entrepreneurs and the Power of New Ideas, Updated Edition — Bill Drayton (veja mais detalhes aqui). O fundador da Ashoka, Bill Drayton, compartilha histórias inspiradoras e sua experiência ao apoiar empreendedores sociais pelo mundo todo.
  6. Building Social Business: The New Kind of Capitalism that Serves Humanity’s Most Pressing Needs— Muhammad Yunus (veja mais detalhes aqui). Nesse livro, o prêmio Nobel da paz, Muhammad Yunus, traz sua experiência e visão na criação de negócios de impacto e como o trabalho com grandes empresas parceiras como a adidas e a Danone tem trazido mudanças na vida de comunidades carentes.
  7. The Blue Sweater: Bridging the Gap Between Rich and Poor in an Interconnected World — Jacqueline Novogratz (veja mais detalhes aqui). Jacqueline é criadora do Acumen Fund, um fundo especializado em negócios sociais. Nesse livro, ela conta sua experiência ao criar o fundo.
  8. Strategy for Sustainability: A Business Manifesto — Adam Werbach (veja mais detalhes aqui). Estar em uma grande empresa não significa deixar de prestar atenção a questões sociais e não participar. Nesse livro, Adam Werback compartilha sua visão e experiência em como negócios podem implementar ações mais sustentáveis e serem mais efetivos.
  9. Qual é a tua obra? — Mario Sergio Cortella (veja mais detalhes aqui). O professor Cortella nos provoca a questionar qual mundo queremos deixar para as próximas gerações. Mais do que bens materiais, "qual a real mudança, melhoria provocada na Terra por conta da sua existência?" e "qual o seu legado?" são perguntas que este livro te ajuda a responder.
  10. Mercy For Animals: One Man’s Quest to Inspire Compassion and Improve the Lives of Farm Animals — Nathan Runkle (veja mais detalhes aqui). Nesse livro, Nathan compartilha sua atuação na causa de proteção ao direito dos animais, contando mais sobre o seu trabalho à frente da Mercy For Animals.

Esses são alguns dos títulos que nos inspiram. E vocês, quais são os livros que vocês recomendam para quem quer fazer a diferença?

Nós, da doebem, acreditamos que a vontade de fazer o bem, aliada ao conhecimento de causas efetivas, proporcionará um real impacto positivo em nosso país. Por isso buscamos as melhores oportunidades de doação no Brasil com base em evidências científicas, tornando assim o processo de doação fácil, seguro e eficiente. Considere começar a doar para as organizações de alto impacto que recomendamos e divulgue a doebem aos seus amigos.

Este post foi escrito por Guilherme Samora e comentado por Elisa Mansur.

Instituto Dara: há mais de 25 anos combatendo a pobreza no Brasil

Uma metodologia pioneira para a reestruturação de famílias de crianças em risco social

Logo que começamos as atividades da doebem, conhecemos uma organização social brasileira que se destacava: o Instituto Dara, chamado na época de Saúde Criança. Fundada em 1991 pela Dra. Vera Cordeiro, a organização desenvolveu e trabalha desde então com uma metodologia pioneira de reestruturação de famílias de crianças provenientes de unidades públicas de saúde.

“Ao atender os pacientes na pediatria do hospital, Dra. Vera percebeu que o ato médico não se completava. Conseguia tratar a doença, mas as crianças voltavam para casas insalubres, com pais muitas vezes desempregados, sem condições de dar os cuidados adequados após a alta hospitalar. Estava diante de um círculo vicioso: miséria, internação, alta, reinternação e muitas vezes morte.”

O que mais nos chamou a atenção quando nos aprofundamos na análise do trabalho realizado pela Associação foi a parceria com a Universidade de Georgetown para a realização de uma avaliação de impacto. O resultado é positivo, no médio e longo prazo, no número de reinternações e na qualidade de vida das famílias atendidas. Conheça mais sobre a pesquisa (sumário em português / estudo na íntegra, em inglês).

O que segue é uma entrevista que realizamos com a equipe de Captação de Recursos e Comunicação do Instituto Dara, em agosto de 2017. Como a organização na época ainda se chamava Saúde Criança, optamos por manter a redação original.

Como o Saúde Criança surgiu? Como foi desenvolvida a metodologia e como é a sua atuação hoje?

A Associação Saúde Criança (ASC) foi fundada em 1991 pela Dra. Vera Cordeiro, médica e clínica geral, com especialização em Psicossomática, que trabalhou por 20 anos no Hospital da Lagoa.

Ao atender os pacientes na pediatria do hospital, Dra. Vera percebeu que o ato médico não se completava. Conseguia tratar a doença, mas as crianças voltavam para casas insalubres, com pais muitas vezes desempregados, sem condições de dar os cuidados adequados após a alta hospitalar. Estava diante de um círculo vicioso: miséria, internação, alta, reinternação e muitas vezes morte.

O Programa Aconchego acolhe responsáveis para a discussão de questões importantes.

A frustração diária a levou a criar um movimento dentro do hospital e junto à sociedade civil para fundar, em 25 de outubro de 1991, a Associação Saúde Criança que aborda a real causa de muitas das doenças tratadas em hospitais públicos: a miséria.

Ouvindo famílias que viviam em situação de extrema vulnerabilidade com crianças internadas, criou junto com voluntários, profissionais de saúde e instituições nacionais e internacionais, ao longo dos anos, uma metodologia social, pioneira e revolucionária.

Quais são os principais resultados da organização até hoje? Quais são os principais indicadores de sucesso?

Em 25 anos, a Associação Saúde Criança atendeu diretamente mais de 60.000 pessoas. Como resultado desse trabalho, foi constatado um aumento de 57% na renda familiar. O número de reinternações das crianças após a participação da criança e de sua família no programa foi reduzido em 58% e houve uma significativa melhora na saúde das crianças atendidas.

Qual principal desafio da ASC para a manutenção das atividades?

A captação de recursos.

Como é o monitoramento dos beneficiários no longo prazo. Depois que param de prestar serviços a família eles fazem alguma entrevista 1, 2, 5, 10 anos depois?

Os resultados de longo prazo do nosso trabalho foram comprovados por professores do Departamento de Políticas Públicas da Universidade de Georgetown (Washington — EUA). A pesquisa mostrou que as famílias assistidas, mesmo cinco anos após a saída do Saúde Criança, continuam a melhorar as suas condições de vida de forma clara e sustentável. Leia mais aqui.

Programa Profissão oferece diversos cursos de acordo com interesses e habilidades dos membros da família.

Você pode contar a história de uma família que passou pela ASC? Como a ASC trabalhou na vulnerabilidade social?

Rosevânia é um exemplo de superação e força. Ela viu a filha, Andressa, de seis anos, adoecer e ficar com sequelas por causa da demora de um diagnóstico médico. No entanto, deu a volta por cima e hoje se prepara para receber alta da Associação. Há três anos no Saúde Criança, Rosevânia é conhecida pelas outras mães, funcionários e voluntários da instituição como Rose. Ela e a filha foram encaminhadas para a instituição pelo Hospital da Lagoa, quando Andressa teve meningite aos dois anos e dez meses de idade.

A criança, que era saudável, começou a ficar com a saúde em risco quando começou a ter febres constantes. Foi levada a diversos hospitais, mas ninguém conseguia identificar o que a menina tinha, até ela ser transferida para o Hospital da Lagoa, onde já entrou tendo que ser entubada às pressas. Lá, os médicos diagnosticaram tuberculose e meningite. A demora da descoberta deixou sequelas em Andressa, que hoje é cadeirante, tem comprometimento neurológico e sofre de encefalite, epilepsia, luxação no quadril e paralisia cerebral.

A doença da menina mudou completamente a vida da mãe. Na época se viu obrigada a parar de trabalhar como diarista para cuidar da filha em tempo integral. No início, Rosevânia ainda era casada com o pai da criança, no entanto, um ano após a internação de Andressa, o casal se separou e ele saiu de casa. Mesmo construindo uma nova família, o pai continua acompanhando o crescimento da filha indo visitá-la de três a quatro vezes por semana, além de pagar pensão e sempre ajudar como pode.

A partir daí, a Rose passou a contar com a família e amigos. Inicialmente, a ex-patroa a ajudou mesmo após seu desligamento do serviço. Depois, ao entrar no Saúde Criança, ela se sentiu amparada. “Quando a minha filha ficou doente, eu fiquei sem rumo, sem saber o que fazer, e foi aqui que me acolheram. Eles me ajudaram com remédio, leite, fralda, cesta básica, alimentação e com o curso profissionalizante. Eu me formei em dois módulos de culinária em 2015 e hoje, graças a Deus, faço bolos e outras coisas para vender”, contou.

Agora, mãe e filha se preparam para se despedirem da instituição. Prestes a receber alta, a cozinheira afirma se sentir preparada para seguir em frente e muito mais segura. Graças à nova profissão ela garante uma renda, além do benefício de Andressa, que é muito pouco. Desde que começou a produzir doces e salgados para festas, Rose vê suas encomendas aumentarem cada vez mais. Segundo ela, em janeiro, dois finais de semana lhe renderam três bolos e mais de 800 salgadinhos.

Querida por todos, a mãe de Andressa admite já sentir falta do Saúde Criança. Em todo tempo que passou aqui ela ainda conheceu sua melhor amiga, Juliana, que também é assistida pela Associação. “Por todo esse tempo, isso aqui representou tudo na minha vida. Estou até triste por ter que sair, é difícil, sabe? Eu vou ter que saber como me virar sozinha de alguma forma. Agora também vou ter que ver como que eu vou fazer pra conseguir os remédios, porque são caros, mas já me ajudaram demais, né? Está na hora de seguir”, afirmou.

Quais são os principais fatores que levaram a ASC a ser reconhecida como a organização não governamental mais influente da América Latina? Quais recomendações vocês dariam para outras organizações do terceiro setor?

Os principais critérios são transparência, impacto social, sustentabilidade e inovação. Nós recomendamos estar com a prestação de contas em dia e fazer auditoria externa anualmente.

O Instituto Dara foi a primeira organização recomendada pela doebem. Você pode realizar uma doação através da nossa página.

Este post foi escrito por Elisa Mansur e comentado por Guilherme Samora

Faça o bem da melhor forma!

As cinco perguntas do livro “Doing Good Better”

Sabemos que a decisão de como ajudar não é uma decisão fácil, pois temos vontade de resolver o maior número de problemas possível: “Que tal doar para pesquisas de cura do câncer? Ou promover o ensino básico para todos? E se pudéssemos garantir uma melhor distribuição de alimentos? Isso sem falar nas pessoas que não tem nem onde morar…”.

Mas a verdade é que temos recursos limitados, tanto em termos de tempo quanto de dinheiro, e assim, precisamos fazer uma escolha sobre como ajudar.

“Precisamos tomar decisões sobre quem escolhemos ajudar, porque o erro de não decidir é o pior erro de todos.” — William MacAskill, Doing Good Better

Por isso, hoje queremos compartilhar com vocês as cinco perguntas que você deve fazerno momento de decidir quem vai ajudar e como fará a diferença. Esse conteúdo foi adaptado do livro “Doing Good Better”, uma das principais leituras da doebem.

Confira abaixo!

1. Quantas pessoas serão beneficiadas? E qual o tamanho deste benefício?

Quanto mais, melhor! Esta primeira pergunta é simples, mas também muito importante. A princípio, quanto mais pessoas conseguirmos beneficiar, maior será o impacto, não é? Assim, precisamos saber quantas pessoas são afetadas pelos problemas que queremos resolver e, consequentemente, quantas vidas podemos salvar ou melhorar.

William MacAskill, autor do livro "Doing Good Better", falando sobre a melhor alocação de recursos no Effective Altruism Global Summit 2016 em Berkeley, na Califórnia

2. Essa é a coisa mais eficiente que eu posso fazer?

Você sabia que os mesmos recursos (o mesmo número de horas e a mesma quantidade de dinheiro) podem promover até 500 vezes mais impacto positivo?

Ao decidir ajudar, a diferença entre um bom uso do dinheiro e um ótimo uso do dinheiro é enorme. Assim, a pergunta não deveria ser apenas se seu dinheiro está sendo bem usado, mas sim se ele está sendo usado da melhor maneira. Afinal de contas, quando investimos o nosso dinheiro em ações e fundos, buscamos o maior retorno possível, não é? Por que seria diferente quando queremos ajudar?

Imagine que você quer reduzir o número de faltas na escola e existam quatro soluções para este problema: transferência de renda/dinheiro condicionada à presença na escola, bolsas de estudos, uniforme grátis e desparasitação. Qual você acha que terá o maior impacto? A conclusão, de acordo com pesquisas realizadas, é que uma destas iniciativas proporciona resultados muito melhores!

Estudo realizado por pesquisadores do JPAL

Veja que trabalhar no tratamento de parasitas (‘deworming’) em crianças proporciona um aumento mais de 60 vezes maior (13.9 anos) na frequência escolar do que a transferência de renda (0.2 anos). Já saberíamos qual intervenção escolher, não é?

3. Esta área é negligenciada?

A quantidade de atenção que um determinado problema ou área está recebendo é outro ponto que precisamos levar em consideração. A depender disso, a ajuda adicional — um conceito chamado de “utilidade marginal” — poderá fazer mais ou menos diferença.

Funciona assim: se uma área recebe muita atenção da mídia e doações frequentes, por exemplo, ao fornecer recursos adicionais, a diferença não será tão grande. Por outro lado, se a causa ainda é negligenciada, não recebe muita atenção ou recursos, as oportunidades de fazer a diferença são muito maiores.

Uma analogia: se tenho um brinquedo para doar, em qual dos dois casos terei maior impacto?

Em suma, nossos recursos devem ser destinados ao lugar que fará a maior diferença e não necessariamente ao problema que está tendo maior exposição e atenção no momento.

4. Do contrário, o que aconteceria?

Não temos bola de cristal e nem a capacidade de ser extremamente preciso ao trabalhar com hipóteses, mas para saber o impacto que estamos causando, precisamos saber o que aconteceria de outra forma, caso não agíssemos. Este é o famoso “counterfactual”.

Se colocarmos em uma fórmula matemática, o nosso impacto seria medido assim:

SEU IMPACTO POSITIVO = O QUE ACONTECE COMO RESULTADO DE SUAS AÇÕES — O QUE ACONTECERIA NA AUSÊNCIA DE SUAS AÇÕES

Veja um exemplo: para obter água para suas famílias, mulheres de vilas ao redor do mundo enfrentavam bombas de água que funcionavam com um moinho de vento ou manualmente. Mas às vezes não havia vento ou o trabalho era muito cansativo! Com o objetivo de ajudar, eis que surge uma invenção: o PlayPump, um carrossel para as crianças brincarem que, ao mesmo tempo, bombeava água para um tanque. As mulheres não iam mais ter que se preocupar! A solução ficou extremamente popular e recebeu a atenção do World Bank, AOL, UNICEF, Bill Clinton, Jay-Z e milhões de dólares de investimento. Um sucesso, certamente!

Será? Com o tempo, percebeu-se que o PlayPump precisava de força constante para funcionar de forma apropriada, e as crianças se cansavam rapidamente de brincar. Além disso, algumas delas ficavam enjoadas ou até mesmo caiam e se machucavam. Acredita que em algumas vilas as crianças começaram a ser pagas para brincar no PlayPump? No final das contas, as mulheres que precisavam movimentar o carrossel, falando que, na verdade, não gostavam da solução e preferiam muito mais a bomba manual.

Viu só? Por causa disso, precisamos nos perguntar: o que aconteceria se eu não tivesse feito nada? Muitas vezes podemos ficar surpresos que intervenções podem trazer um resultado pior do que se não tivéssemos feito nada, pois como o livro mesmo levanta: boas intenções podem facilmente trazer péssimos resultados! A decisão de ajudar é algo de extrema importância e precisa ser pensada com cuidado.

5. Quais são as chances de sucesso?

Por último, mas não menos importante, vamos pensar sobre o valor esperado de determinada intervenção ou programa, ou seja, qual o seu resultado esperado. Para isso, há duas coisas que precisam ser medidas:

E o nosso impacto é o produto destes dois fatores!

Dessa maneira, uma atividade com baixa probabilidade de sucesso, mas com alto valor de sucesso pode ser escolhida em detrimento de uma atividade com altíssima probabilidade de sucesso, mas com um valor baixo de sucesso.

“[Nestes casos], a chance de você ser a pessoa que faz a diferença é bem pequena, mas se você fizer a diferença, ela será realmente impactante.” — William MacAskill, Doing Good Better

Parece muita coisa pra se pensar, não é? Pois é mesmo! Queremos ressaltar que sabemos que a decisão de como ajudar não é fácil — vamos ser francos, é definitivamente difícil. Nem sempre temos a resposta exata e mais precisa para tudo, mas ao embasar nossas decisões nestes pontos, já estamos potencializando nosso impacto de forma inimaginável!

“Encontre a instituição de caridade que fará a maior diferença com cada dólar que receberem” — William MacAskill, Doing Good Better

Precisamos combinar o coração e a razão para tomar decisões que proporcionem o maior impacto positivo ao nosso redor!

O autor de “Doing Good Better”, inspiração para este post e para a doebem, é William MacAskill, que tivemos o prazer de conhecer durante o Effective Altruism Global Summit 2016 em Berkeley, Califórnia. Além de ser professor de filosofia em Oxford, é também co-fundador do Effective Altruism MovementGiving What We Can e 80,000 Hours.

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